08 de julho de 2026

Permanência


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Por Chiachiri Filho


Nos finais do século XIX e começos do século XX, o velho arraial de Nossa Senhora da Conceição da Franca renascia, sob os estímulos da economia cafeeira, com o estabelecimento de inúmeras lojas de armarinhos, tecidos, ferragens, bem como com a montagem de bares, restaurantes, bilhares, lotéricas, hotéis, etc. Instalam-se fábricas e oficinas e são produzidos os mais variados bens de consumo: cerveja, gasosa, fósforos, chapéus, carrocerias, móveis, selas e arreios, calçados. Enfim, a cidade ganha contornos definidos, fisionomia e identidade e é dentro deste contexto que surgem os jornais.

De fato, o aparecimento dos jornais está intimamente relacionado com o crescimento demográfico, o desenvolvimento do comércio e da indústria, o aperfeiçoamento dos meios de comunicação e transportes. Por conseguinte, o jornalismo é uma atividade eminentemente urbana que não só serve para formar, mas, também, para repercutir a opinião pública que se origina das aglomerações humanas diversificadas e livres.

Assim, em 1882 aparece o primeiro jornal de Franca, o Nono Districto, cujos diretores-proprietários eram os portugueses César Augusto Ribeiro e Gaspar da Silva.

A denominação Nono Districto derivava da divisão da antiga Província de São Paulo em Distritos Eleitorais. Franca fazia parte do Nono Distrito.

Maçons, abolicionistas, anti-clericais, César Augusto Ribeiro e Gaspar da Silva usaram do seu jornal como veículo de suas idéias. Enfrentaram, em oposição, o Reverendo Monsenhor Cândido da Silveira Rosa, vigário da Paróquia, que se defendia e atacava através da Tribuna da Franca e da Justiça.

De Nono Districto, o semanário, sob a direção de Fulgêncio de Almeida, passa a chamar-se Cidade da Franca, cuja primeira edição saiu em 11 de julho de 1892.

Vários jornais francanos ostentaram o título de Gazeta. Porém, o mais antigo foi, certamente, a Gazeta da Franca que passou a circular em 1883 sob a direção de José Alfredo Lopes.

José Garcia Duarte (o Barão da Franca) e José Teodoro de Melo eram os proprietários do Jornal A Justiça, que circulou em 10 de fevereiro de 1884 sendo o seu redator político Estevão Leão Bourroul que assinava os seus artigos sob o pseudônimo de “Iskander”. A Justiça era órgão do Partido Conservador cuja gerência estava a cargo de Estevão Marcolino de Figueiredo.

O primeiro número de O Francano aparece em 5 de julho de 1888. Editado semanalmente, era propriedade de Álvaro Abranches & Irmão. Sua circulação foi interrompida várias vezes e, em cada interrupção, trocavam-se os proprietários e redatores. Em 1905, O Francano passa a ser um jornal diário e assim permanece até 1907.
Em 25 de agosto de 1900, surge a Tribuna da Franca. Sob a responsabilidade do jornalista Francisco Cunha.

Muitos outros periódicos surgiram entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX. O Círculo Socialista Internacional editava, em 1905, o Primeiro de Maio. O Janota (8 de março de 1903) era um órgão humorístico e literário. A Loja Maçônica Émile Zola publicava o Lowton (1903). Os espíritas lançaram Perdão, Amor e Caridade (1896), Castigo, Ódio e Egoísmo (1895) e Apoteose (1897). O Alcaide, O Alfinete, o Rosa-Chá, o Fígaro, o Bandolim, o Polichinelo, o Sonhador, o Estudante, o Cravo, o Tiradentes, o Pirilampo, o Colibri, a Camélia, a Estrela Polar e o Jasmim são alguns dos inúmeros jornais que floresceram e feneceram na cidade da Franca.

Os jornais que circularam por um período maior de tempo foram: Nono Districto (12 anos), O Francano (10 anos), A Justiça, O Correio Popular e a Gazeta da Franca (3 anos), a Sentinela, Álbum, Bandolim e Alfinete (2 anos).

Em 1903, começa a circular o Diário da Franca (cujo nome será restaurado sete décadas depois pelo jornalista Luís Carlos Facury). No expediente do jornal, não figuravam os seus diretores e colaboradores. Dizia-se, simplesmente, que ele era propriedade de uma “Associação” e mais nada. Através da leitura dos seus exemplares (existentes no Arquivo Histórico) descobrimos que o seu gerente era João Lourenço Filho. Sob o pseudônimo de Arquelino, escrevia o Dr. Júlio Cardoso, Álvaro Abranches assinava as suas matérias como Leão D’alva. Completavam o seu quadro de redatores o Dr. João de Faria e o Prof. Sabino Loureiro.

Em 26 de outubro de 1940, passava a circular o jornal Diário da Tarde sob a propriedade e direção de José Chiachiri e Francisco de Andrade Filho (o Chico Adelino). Após um breve período de ausência da sociedade (sendo substituído por Granduque José), Chiachiri volta novamente para ser o seu único proprietário e diretor responsável. Até 1957 quando assume o seu controle um grupo comandado por Onofre Sebastião Gosuen (então Prefeito de Franca) e Granduque José. Seguem-se vários outros diretores como Mira de Oliveira, Octávio Cilurzo, Jorge Cheade, João Roberto Correa. O jornal encerra suas atividades nos inícios da década de 1960.

O jornal Comércio da Franca aparece em 1915, sob a direção de José de Melo. Sua primeira edição data de 30 de junho. Vespertino, circulava às quartas-feiras. Tinha como grande objetivo a defesa dos interesses do Comércio, Lavoura, Indústria e Artes. No editorial de apresentação do novo jornal, José de Melo define claramente os seus propósitos.

“Resolvendo a publicação deste jornal, temos em mira o firme propósito de contribuir para o engrandecimento de nossa terra. Dedicamo-lo ao Comércio, à Lavoura, à Indústria, às Artes, para que, como verdadeiro porta-voz dos interesses dessas classes, seja elle o sólido liame na completa expansão progressista, na harmonia que deve reinar entre tão poderosos ramos da actividade humana.”

Sobre o relacionamento do jornal com seus colegas de imprensa, esclarece o articulista: “Nossa folha se propõe a colaborar com os bons colegas de imprensa na propaganda cerrada de nosso Município, que caminha a passos de gigante para o progresso seguro e certo.”

O desenvolvimento da cidade da Franca nos inícios do século XX propiciava o surgimento dos periódicos. Apesar das instabilidades da economia cafeeira, o comércio, a lavoura e a indústria do município conseguiam dar-lhes a devida sustentação. Neste sentido, escreve o jornalista: “A crise que atravessamos veio pôr em grande destaque a solidez do seu commercio, o poder productor da lavoura, o desenvolvimento da industria, que são os elementos básicos das forças vivas no laborioso município da Franca. A Franca, mesmo distante do grande centro paulista, vai marchando na vanguarda do progresso e merecendo, sem favor, os foros da terra civilizada, rica e de grande futuro. Nosso jornal lhe emprestará o melhor dos seus esforços, tornando-se carinhoso e dedicado na defesa das idéas, que de algum modo, possam contribuir para o maior realce moral, intellectual ou material deste abençoado torrão.”

Continuando, o editorialista propõe o distanciamento do jornal das questões de caráter pessoal: “Procuraremos evitar as discussões infructiferas, fugiremos às dissenções pessoaes, escolhos em que, geralmente, sossobram os jornaes do interior. Só daremos guarida a questões particularizadas quando o indivíduo tenha contribuído para o engrandecimento ou depreciação da collectividade.”

Encerrando o editorial que continha o programa do novo vespertino hebdomadário, José de Melo concluía: “Eis pallidamente nosso programa. Árdua é por certo a tarefa a que nos afrontamos, mas, por isso mesmo, nos devem ser desculpados os desvios que involuntariamente comettermos, mesmo porque ‘Errare humanum est’.

Bem intencionados, como estamos, no firme propósito de prestar algum serviço à população ledora, entregamo-lhe hoje o nosso jornal e esperamos merecer-lhe o indispensável apoio moral e material”.

O Comércio, ao longo do tempo, teve outros proprietários, muitos diretores e colaboradores. Em 1º de abril de 1972 é adquirido pelo jornalista José Correa Neves. Sob sua direção, o jornal passa por uma verdadeira revolução tecnológica com a constante aquisição de máquinas e equipamentos de última geração. Assim, pela sua qualidade técnica e de conteúdo, o jornal torna-se um dos principais órgãos da imprensa interiorana.

De todos os periódicos vespertinos, matutinos, hebdomadários e diários, o único sobrevivente, sem nenhuma interrupção, foi o Comércio. O jornal circula desde 1915 e permanece para continuar contando a História de nossa gente.