Como as coisas mudam em trinta anos! Quando comecei aqui no Comércio, em 1980 (exatamente no dia 30 de junho, uma segunda-feira), o computador era uma mera esperança para o futuro. Existiam alguns mainframes enormes, utilizados por empresas e cuja memória eram cartões perfurados. No jornal pós-linotipo existiam apenas as chamadas composers IBM, cuja “espantosa” memória era de tão somente cinco mil toques. Ou seja: o digitador só conseguia escrever cinco mil letras (e espaços) por vez, tendo que imprimir o material para “descarregar” a memória. Uma simples queda de energia no meio do processo, tudo era perdido: tinha que se começar de novo.
Naquela época, fazer jornal era um trabalho extenuante, totalmente manual. Era uma profusão de papel, tesouras, colas, réguas e canetas. Qualquer tipo de caderno extra - como os de aniversário do jornal e da cidade - deveria ser iniciado cerca de 15 dias antes e a equipe dobrar: depois de terminado o jornal do dia, iniciávamos as páginas especiais por mais algumas horas. No decorrer dos dias, acabávamos com tudo e a montagem dos fotolitos e a impressão se davam fora do horário normal dos dois setores.
O que hoje, com os computadores, é concentrado em dois ou três programas, naquela época eram setores completamente diferentes: a máquina que compunha os textos (que saíam numa tira comprida, justificados) não era a mesma que fazia os títulos. Quem diagramava a página (definindo onde cada matéria, cada foto ou cada anúncio iriam, além de calcular o tamanho dos títulos) não era a mesma pessoa que lhe dava a finalização. Quem imprimia, gravava as chapas, mas tinha que esperar que o pessoal da fotomecânica montasse os fotolitos (um filme que servia para “gravar” a chapa, num processo meio parecido com os das fotografias em papel), corrigindo os defeitos e falhas que porventura passassem pela arte-final - ou pestape (paste up), como chamávamos.
Naquela época, ainda nos enrolávamos com os “leads” (o que chamamos hoje de abre de texto) e tínhamos que determinar se os títulos teriam “caixa alta” ou “caixa baixa” (maiúsculas ou minúsculas). E os sinais que a revisão colocava nos textos para que o digitador fizesse as devidas correções? E os estiletes que “abriam janelas” na arte final, onde deveriam ir fotos e anúncios? E o ABDeck (abideque, como chamávamos), que pintava os fotolitos eliminando manchas e riscos que não poderiam ser impressos? E a fita (adesiva) vermelha, que tinha a mesma função? E a aplicação de retículas na fotomecânica, para que as fotos não ficassem com aparência de fotocópia? E a velha tituleira Morisawa, uma japonesinha bastante complicada e que também foi abandonada com o advento da informática?
Quando entrou o primeiro computador no jornal, híbrido de composer e computador, foi a revolução: tinha a surpreendente capacidade de armazenamento de 12 mil toques e permitia ainda que se gravasse o material em disquete (aqueles grandões, de 5,25 e capacidade de 160 Kb). Isso no final da década de 1980. Depois vieram outros semelhantes e, em meados da década de 1990, a verdadeira revolução: um XT com 256 Kb de RAM e disco rígido de 10 Mb. A partir daí, fomos migrando: 286, 386, 486 e Pentium. Hoje, dezenas de máquinas dominam todos os departamentos do jornal, rodando em rede e quase nenhum com menos de 1 Giga de memória e HDs superiores a 160 Gb. Uma grande evolução que acompanhei de perto, adaptando-me. Hoje, ainda fazemos as páginas do jornal, mas sem a manipulação de papel, cola, tesouras. Ainda temos as chapas na impressora, mas sem que se passe por pestapistas, operadores de fotomecânica e montadores de fotolitos e chapas.
O processo ficou bem mais limpo, rápido e eficiente. O jornal muito mais bonito e mais abrangente. O número de páginas, nestes 30 anos, cresceu das oito daquela época para uma média de 32 durante a semana. Das dez de domingo para 80. Uma evolução que reflete as várias revoluções deste tempo todo. E eu fico aqui, orgulhoso, acompanhando e participando de tudo isso. Deixando de lado a jurássica máquina de escrever, substituída pelo teclado eletrônico. A tela de LCD tomou o lugar da folha de papel em branco. Mas uma coisa ainda permanece: o calor humano, as relações interpessoais e, acima de tudo, a alegria que tenho de todos os dias chegar ao moderno prédio do GCN Comunicação e vislumbrar os semblantes de sempre (dona Sônia, Júnior, Dulce e Sandra) e outros mais recentes, mesmo que de uma década ou mais (Joelma e Sérgio) e tantos outros colegas, como Denise, Ferreirinha, Fernando entre mais dezenas. Tudo isso me envaidece, alegra e torna meus dias mais felizes. Como há 30 anos, quando iniciei meu primeiro dia por aqui... E ainda sinto, mesmo cinco anos após a sua morte, a força das idéias, dos ensinamentos e dos sonhos do jornalista Corrêa Neves percorrendo todos os departamentos do GCN Comunicação, o que faz o Comércio, em particular, ir para a frente, evoluindo sempre e rejuvenescendo cada vez mais com o correr dos anos.