08 de julho de 2026

Cantar em Franca


| Tempo de leitura: 2 min

O público francano sempre se primou por receber bem aos artistas em suas apresentações pela cidade. Não importa a área de atuação. Cantores, atores, autores e outras personalidades vão embora daqui com boas lembranças da platéia. Não esquecem o carinho recebido em forma de aplausos ou até mesmo de um par de sapatos. Um dos últimos comentários a esse respeito é do guitarrista e também escritor Tony Belloto. Após se apresentar no Castelinho, no final de junho, ele assim se manifestou em palestra na Feira do Livro de Ribeirão Preto: “Depois de fazer um show com os Titãs na capital dos sapatos e do basquete, tive apenas umas três horas para dormir um pouco e recuperar parte da energia despendida no memorável show. Como são animados os fancanos!”


Numa época em que os circos apresentavam duplas sertanejas ou cantores populares, comumente eles chegavam à cidade de trem. Aproveitavam então as lanchonetes (bares) da Praça Sabino Loureiro para tomar um café. Alguns bebiam um gole da “branquinha”! Com o assédio do público, os artistas rememoravam as passagens anteriores pela Capital do Calçado. Moacir Franco tem um carinho especial por Franca. Toda vez que vem à cidade menciona o fato de ter trabalhado aqui como pintor. Lembra-se até o local de seu antigo ateliê na Rua Voluntários da Franca, quase esquina com a Voluntário Mário Mazine. Ao lado, havia uma alfaiataria. O cantor não se esquece da presença constante do poeta Nicácio Branquinho para experimentar uma calça ou um paletó.


No final da década de 1970, o cantor português radicado no Brasil Abílio Manoel esteve em Franca para se apresentar na Expoagro. Artista sem muito apelo popular, com mais aceitação no meio universitário, ou talvez pelo fato de seu show ter sido numa fria noite de maio, o público foi pequeno. Para piorar, a cada apresentação musical, a platéia diminuía mais.O público francano parece não ter entendido a mensagem de uma música engajada como “Tudo Azul n’América do Sul” ou mesmo o romantismo presente nas letras de “Pena Verde” e do sucesso “Andréia”. Na saída do palco, Abílio Manoel parecia desolado. Ao ser abordado por três rapazes da cidade, que se desculpavam pelo pouco acolhimento da população, o compositor e cantor mostrou estar preparado para eventuais fracassos.


Dois anos depois, nos contrafortes da Cordilheira dos Andes em Mendonza, cidade argentina já na divisa com o Chile, após um show dos mais animados, Abílio Manoel recebeu um dos integrantes do trio solidário a ele na Capital do Calçado e relembrou tudo. Não mostrou mágoa e ainda disse ter sido muito bom cantar em Franca e que voltaria à cidade para conquistar o público. Mas agora não voltará. Exatamente na terça passada, durante a partida de futebol entre Portugal e Espanha, Abílio Manoel sofreu um infarto e morreu aos 63 anos, vestindo a camisa da seleção portuguesa.

 

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br