10 de julho de 2026

Mão de obra da indústria calçadista está mais velha


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O número de jovens sapateiros diminui a cada ano em Franca. Dados do Ministério do Trabalho com base no Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que, ao longo das duas últimas décadas, a quantidade de trabalhadores com menos de 30 anos no chão das fábricas francanas caiu de 21,9 mil para 12,5 mil. Em 1988, eles representavam 66% do total da mão de obra formalmente empregada no setor calçadista. Em 2008, não chegaram a 44%.


Não há estudos sobre essa queda, mas especialistas e empresários calçadistas apontam como razões para a debandada de jovens os baixos salários, a desvalorização do trabalho industrial, a falta de perspectiva de crescimento na carreira e o aumento de vagas em outros setores da economia, como o comércio e os serviços.


Ana Paula Lamboglia, 28 anos, está entre os milhares de jovens que não querem trabalhar com a fabricação de sapatos. Aos 13 anos, ela começou a ajudar a mãe na banca de pesponto que a família mantinha em casa. A rotina de costurar e colar calçados acompanhou a jovem mesmo quando, aos 18 anos, passou a estudar à noite. Ana sonhava em ser advogada e, por três anos seguidos, prestou vestibular, mas não passou. Mesmo tendo desistido de cursar uma faculdade de Direito, a moça não quis continuar trabalhando com calçado e arrumou um emprego de vendedora em uma loja do Shopping do Calçado de Franca. “Hoje tenho 28 anos e meu salário é praticamente o mesmo que o de um pespontador, mas aqui tenho chance de crescer, fazer uma carreira”, disse ela.


Casos como o de Ana Paula chamaram a atenção do sociólogo Agnaldo de Souza Barbosa, que coordena o núcleo de pesquisa sobre o setor ligado à Unesp. Segundo ele, o problema é cultural. “Houve uma desvalorização do trabalho industrial no último meio século. Isso porque, para os mais jovens, este tipo de ocupação não está vinculado às novas tendências da economia, mas isso não é verdade. Até o termo sapateiro acabou se tornando pejorativo. Falta esclarecimento”, disse Barbosa, lembrando que o trabalho industrial está na essência da economia de Franca e, com a retomada do setor, tem aberto muitas oportunidades.


A expansão dos setores de comércio e serviços em Franca é o motivo apontado por Wagner Lopes, coordenador técnico do Senac, para a demora de que tem menos de 30 se decidir pelo calçado no município. Ele acompanha todos os anos mais de cinco mil alunos que passam por cursos de qualificação na entidade. “Atualmente há muitas vagas no comércio. O que percebo é que os jovens primeiro tentam uma outra carreira. A maioria, no entanto, acaba constatando que a maior concentração de vagas em Franca ainda é na indústria. Aí, volta, depois de algum tempo, e está mais velha”, disse Lopes.


Para o agente de exportações, Cassiano Pimentel, a falta de interesse dos jovens pela profissão pode se tornar um problema a médio prazo. “Esse envelhecimento da mão de obra do setor já é evidente nas fábricas. Se hoje enfrentamos escassez de trabalhadores, imagine se não houver renovação... Para que isso mude, é preciso haver uma perspectiva de carreira para ele, um ganho salarial futuro”, disse Pimentel.

Veja o quadro abaixo: