08 de julho de 2026

Fazendo e registrando história


| Tempo de leitura: 3 min

Por Eny Miranda

Há 95 anos, um periódico vem inscrevendo seu nome na história do jornalismo francano e paulista: o Jornal Comércio da Franca. Conheci-o quando aqui cheguei, no início deste século, e logo me chamou a atenção. Passei a visitar suas páginas, habitualmente, e, a cada visita, certificar-me da boa qualidade jornalística nele apresentada. E fazer um jornal de qualidade não é simples, como pode parecer.


Bom jornalismo se faz à custa de exaustivo trabalho, que começa com o garimpo de dados, de informações; com a coleta diária de fatos da vida que podem ser de interesse coletivo; e prossegue na divulgação desses fatos - a veiculação da notícia, que é levada à folha e distribuída, oferecida a olhos e mentes e, portanto, submetida a aprovações e a críticas.
A arte do bom jornalismo pressupõe, além de empenho e dedicação, leitura e conhecimento, força e destreza, dinamismo e talento; diferenciação. Em duas palavras: competência e brilho.


Tecem-se as páginas do bom jornal com os fios da franqueza, da firmeza, da retidão e do equilíbrio. Expõem-se nas páginas do bom jornal a tragédia sem sensacionalismo, a beleza sem pedantismo, a dor sem negativismo. Consolidam-se essas páginas com a prática da isenção sem omissão, com o exercício da Ética. A transcrição das levezas e cruezas da vida deve ser apoiada na verdade e na elegância, na densidade e na presteza; deve aliar concisão máxima a máximo conteúdo.


No início do século XIX, em A Filosofia da Composição, Edgar Allan Poe, referindo-se à Literatura, já preconizava que uma obra moderna deveria ser breve, para ser lida de uma só assentada; que os ritmos da vida e da cultura exigiam a alteração na dimensão da obra, porque a percepção é comum ao tempo e o tempo é de urgência.


Ao final do mesmo século, nos idos de 1886, Eça de Queirós também advertia: “Esta expressão ‘a leitura’, há cem anos, sugeria logo a imagem de uma livraria silenciosa, com bustos de Platão e de Sêneca, uma ampla poltrona almofadada, uma janela aberta sobre os aromas de um jardim: e neste retiro austero de paz estudiosa, um homem fino, erudito, saboreando linha a linha o seu livro, num recolhimento quase amoroso. A ideia da leitura, hoje, lembra apenas uma turba folheando páginas à pressa, no rumor de uma praça’.


São verdades que transcendem a literatura de ficção, e se estendem também - e principalmente - ao jornalismo dos dias de hoje; à urgência, à escassez de tempo que ele enfrenta cotidianamente. Há que ser ágil o bastante, sem ser superficial, para atender aos leitores da informação, cada vez mais apressados, mais ávidos de concisão, mais imediatistas. Há que recorrer, não só às folhas impressas, mas também às linhas aéreas, às ondas, à eletrônica, à internáutica... Recorrer ao que de mais recente existe em comunicação, escrita e virtual.
E o bom jornal, além de cérebro, além de nervos, além de músculos ágeis, há que ser ainda coração e alma. E o que me encanta não é só a excelência do jornalismo; o que me encanta, no Comércio, é também o carinho nele dispensado à arte.
 

Sonia Machiavelli tem sido incansáveis coração e alma a serviço da arte, com sensibilidade e competência. Enquanto se semeiam sépalas e pétalas nos canteiros do Clubinho, colhem-se cálices e corolas nos jardins do Nossas Letras, em continuado trabalho de geração, nascimento e amadurecimento; largo gesto de apoio e incentivo aos amantes do belo, sobretudo os mais novos, que podem exibir sua obra ao lado de nomes conhecidos e respeitados na cidade.


Por isso, um bom jornal não nasce todos os dias em brotamento espontâneo: é cultivado, construído. E construir e cultivar um bom jornal é também uma espécie de predisposição natural.


Há 37 anos, os Corrêa Neves vêm demonstrando isso, imprimindo sua verve jornalística nas páginas do Comércio da Franca.

                                                                                     Eny Miranda - é médica, poeta e cronista