Roseli Pereira da Silva Costa e Emerson Cardoso Costa se casaram faz apenas um ano. Há cerca de dez dias estão alojados na casa da sogra de Roseli. No quarto onde se instalaram, está a cama do casal, a televisão, a escrivaninha, a geladeira e uma cadeira de rodas. Aos 22 anos, Roseli teve parte da perna esquerda amputada e está com pinos na coxa para colar o fêmur. No dia 19 de junho, a jovem e o marido seguiam de moto para o sobrado onde moravam no Jardim Vera Cruz e sofreram um acidente. Os dois estavam a uma quadra de casa quando foram atingidos por um carro dirigido por um jovem de 21 anos embriagado.
Emerson pilotava a moto e conseguiu tirar a perna antes de ser atingido. Roseli não teve tempo. “Não era para estar nesta cama agora, era para estar trabalhando. Por causa da imprudência de uma pessoa, minha vida mudou radicalmente. No começo, isso me deixou revoltada porque estou imobilizada. Se quero água, tenho que chamar alguém. Se quero ir ao banheiro, tenho que pedir ajuda”. Os Bombeiros de Franca atendem em média cinco acidentes com motos por dia. No último ano, o Comércio noticiou 46 mortes envolvendo esse tipo de veículo.
Após a colisão, o pé de Roseli ficou dilacerado. Lembrar da poça de sangue no asfalto e da cena do acidente é um pesadelo que tem perseguido Emerson, de 32 anos, dia e noite. “O pé dela envergou junto com o amortecedor da moto. Só vi quando ela voou com o pé solto no ar, preso só por um pedaço de pele. Foi cena de guerra, que a gente só vê em filme. Ver isso na pessoa que a gente ama e não poder fazer nada é um sofrimento grande”.
A jovem enfrentou uma cirurgia de três horas para amputar a perna, do joelho para baixo, e colocar os pinos no fêmur. Quando estava no quarto da Santa Casa, desconfiou que estava mutilada. “Deitada, eu olhei para meus pés e percebi o lençol mais baixo do lado esquerdo. Depois o pastor da minha igreja me deu a notícia”. Roseli tinha uma rotina agitada. É auxiliar de produção numa fábrica de calçados e mantinha um ritmo de trabalho de dez horas diárias. Sempre gostou de caminhar, mas há 15 dias está presa a uma cama. Precisa de fraldas, faz curativos todos os dias, toma oito medicamentos, está sob efeito de calmantes e tem sofrido com dores na perna. “Sinto dores insuportáveis. Rezo para Deus aliviá-las”.
As orações de Roseli e do marido também são para que o motorista do carro que os atingiu seja punido. O rapaz chegou a ser autuado em flagrante por estar bêbado, mas uma fiança de R$ 1,2 mil o livrou da cadeia. “Não quero vingança, apenas que ele pague pelo crime que cometeu. Deito com minha mulher, ela chora de dores e a única coisa que posso fazer é falar para ela que Deus está do nosso lado e isso vai passar”, disse Emerson, chorando. Roseli espera que o motorista seja mais consciente. “Quero que isso sirva de lição para ele. Cada vez que ele colocar um copo de cerveja na boca que ele lembre que não deve pôr a mão no volante. Se não batesse na nossa moto, iria atropelar três crianças na calçada”.
Roseli planejava engravidar em janeiro de 2011 e financiar uma casa. Com o longo tratamento que enfrentará, a jovem e o marido foram obrigados a adiar os planos. “Nossa maior esperança é ela ter uma vida normal e que o que aconteceu com ela seja só um imprevisto, e que ela não se abata”.
Como Roseli, o motorista Walter Luiz Ferraro, 44, faz parte das histórias de pessoas que escaparam da morte, mas convivem com marcas das tragédias enfrentadas sobre duas rodas. Uma fração de segundos provocou uma reviravolta na vida dele. Era madrugada do dia 21 de abril de 2010 e ele havia acabado de sair do trabalho. Seguia para casa, de moto, ansioso para descansar, mas o trajeto foi interrompido de forma brutal. Ele descia pela Rua Arnulfo de Lima quando no cruzamento com a Avenida Alonso Y Alonso bateu com outro motociclista. Com o impacto, a moto de Walter caiu dentro do córrego e ele foi arremessado a cinco metros de distância. Bateu contra a grade de proteção existente na ponte.
O lado esquerdo do corpo dele foi destruído. Ele quebrou o ombro, o fêmur, o pé, sofreu fraturas no cotovelo e braço e precisou amputar um dedo da mão. Fraturou os dedos do pé e mão direita, teve fratura no maxilar e o tímpano perfurado. Um profundo corte na cabeça deixou Walter com paralisia facial. Enfrentou três cirurgias para tentar colar os ossos quebrados e cortar a parte do dedo destruída. Escapou da morte por sorte. Muitos não acreditaram que sobreviveria. “Não me lembro nem do barulho da batida. Fiquei três dias na UTI, desacordado, sem me lembrar de nada. Só quando acordei vi que não tinha partido desta para outra. Muita gente achou que eu não ia sair dessa e, se ficasse vivo, teria sérias sequelas”.
Walter, que teve medo de não conseguir mais andar, vibra por ter conseguido ficar em pé e tomar banho sozinho na semana passada, depois de mais de dois meses do acidente. “Quando acordei e vi meu braço e perna fiquei com medo de nunca mais andar. Graças a Deus não tive fratura na coluna. Vou me apoiar num andador. Muletas não consigo usar por causa da fratura no ombro”. Sessões de fisioterapia ajudarão a recuperar os movimentos.
Walter pilota moto desde os 18 anos. Já sofreu quedas e tinha sido vítima de outro acidente em outubro 2007. Agora, desistiu de andar de moto. Quer eliminar o veículo de sua vida e ser exemplo para o filho Pedro Henrique, 6. “Moto é ilusão. O menino depois que tira carta, a primeira coisa que quer é comprar moto. Eu mesmo já tive moto pequena, grande. Agora não aconselho ninguém a ter moto. Moto não quero mais. Não adianta, na moto o parachoque é sua cabeça, o seu corpo. Não quero nunca mais subir numa moto. Tenho de ensinar isso a meu filho”, disse ele, que perdeu um primo de 43 anos, André Ferraro, em acidente de moto no mês passado.