09 de julho de 2026

A parceria de Mandela e Pienar


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Preso durante 27 anos, condenado por crime político, Nelson Mandela, 92, passou por situações que a qualquer mortal poderiam desestabilizar e até aniquilar. Submetido a trabalhos forçados, em condições adversas de higiene, limitado a ração insuficiente de comida, nos momentos cruciais o prisioneiro de Robben Island alimentava-se de poesia, principalmente dos versos de um poema do escritor e jornalista inglês William Ernest Henley (1849-1903) cujo título é Invictus.


Por isso Invictus foi o título escolhido por Clint Eastwood para nomear o filme sobre a vida do líder sul-africano que a Copa do Mundo colocou mais uma vez em evidência. Não bastasse a chancela do cineasta importante cujos valores pessoais e artísticos estão ancorados na solidariedade e na consciência da complexidade humana, o ator escalado para interpretar Mandela foi Morgan Freeman. A admiração do intérprete pelo interpretado (e vice-versa) conferiu ao protagonista uma veracidade que por momentos confunde o espectador: ele está diante de ficção ou de documentário?


O filme começa com a libertação de Mandela em 1990 e sua subsequente campanha à presidência da República. A fala em Durban, numa das primeiras cenas, já mostra o lema que norteará toda a sua trajetória. Falando a uma multidão calculada em 100 mil pessoas, faz um link entre perdão e convivência pacífica:  “A nação arco-íris começa aqui; o perdão arco-íris também começa aqui”. Com um discurso contra a vigança tribal e a favor da construção de um país sem rachaduras, Mandela surpreende e se elege.


Na prática, os valores e o desejo do eleito têm de enfrentar uma oposição de início subreptícia que vai aflorando em diferentes faces. Uma delas, mais óbvia e contundente, exibe a minoria branca no controle da economia e dos empregos que deveriam estar distribuídos de forma equânime. Uma surda revolta ameaça o processo de reorganização da nação, que Mandela só vislumbrava se houvesse condição de unir brancos e negros. Naquele momento isso parecia inviável.


 Mas tendo assistido aos Jogos Olímpicos de Barcelona, volta a Pretória impressionado com a força do esporte como fator de união de povos até adversários. Processada esta informação pelo cérebro mas também pelo coração, Mandela mira a Copa de Rugby/ 1995. O esporte, herança holandesa, é muito popular no país. Numa das primeiras entrevistas sobre este torneio mundial, durante uma partida, um repórter pergunta a Mandela:


- Conhece algum jogo mais violento que o rugby?


E ele, direto e metafórico:


- Só a política.


Para vencer os desafios iminentes desta última, Mandela decide investir na seleção sul-africana, a Springboks. Chama o capitão François Piennar (Matt Dammon) e lhe pede mais que uma vitória na Copa; convence-o de que o desempenho da equipe deve servir para cativar a população negra que hostiliza o time, tradicionalmente vinculado à elite branca. Ao ouvir do atleta que a empreitada não será fácil, resgata e recita pela primeira vez no filme os versos finais do poema de Henley, cuja melhor tradução para o português é a de André C. S. Masini, na “ Pequena Coletânea de Poesia de Língua Inglesa”:


“ Por ser estreita a senda- eu não declino/ Nem por pesada a mão que o mundo espalma/Eu sou dono e senhor de meu destino/ Eu sou o comandante de minha alma.”*


Os versos que marcam o diálogo firmam uma parceria entre presidente e capitão. Em termos de imagens, mudam o ritmo do filme, que ganha em agilidade crescente. O poema será retomado em momento decisivo desta disputa de fundamental importância na jornada que vai, pouco a pouco, diminuir um pouco o fosso entre brancos e negros, na busca por uma genuína comunidade sul-africana.


A Copa de Rugby aconteceu há 15 anos apenas, tempo ínfimo em termos históricos. A África do Sul ainda exibe muitas mazelas que jornalistas (entre eles Rodolfo Tiengo e Marcos Limonti, deste Comércio da Franca) têm desvelado em reportagens paralelas à cobertura na Copa de Futebol 2010. Mas a parceria de Mandela e Piennar conti-nua sendo um exemplo vívido de possibilidade a ser tentada em circunstâncias difíceis, quando a fragmentação ameaça o convívio e a integridade. Transformar em filme o fato é ato de generosidade do cineasta. Como toda escolha humanista, é aposta na esperança.