07 de julho de 2026

Zero


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Fui assistir à palestra do escritor Ignácio de Loyola Brandão, na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Era um sábado, às 9 horas da manhã, no Teatro Pedro II. Para minha surpresa, quase setenta pessoas apareceram de madrugada para ouvir as histórias do autor, um araraquarense que está comemorando os 35 anos do lançamento do seu romance Zero, que foi proibido durante a ditadura.


Durante uma hora e meia, com a mediação do escritor Menalton Braff, demos muitas risadas com suas tiradas e conhecemos mais detalhes da sua rica história de vida e da produção do escritor, com quem tive o privilégio de estabelecer laços de amizade. Foi ele quem escreveu o prefácio de meu segundo livro e autêntico best-seller (a gigantesca tiragem de quinhentos exemplares se esgotou em dois meses), A Noite dos Espantalhos e Parasitas que, no ano que vem, comemora 30 anos de lançamento. Se sair a Bolsa Pistolinha, posso tentar a reedição do livro. Pensando bem, talvez seja melhor deixar como está.


Foi ouvindo e lendo Loyola Brandão que dei um rumo a minha literatura. Ele coleciona papeizinhos, recortes de jornal, lê inscrições nos banheiros públicos, nos muros da cidade, mistura e utiliza tudo em seus livros. Ele me ensinou a importância de ter sempre à mão uma caderneta para ir anotando as ideias (recentemente ganhei uma chique da minha amiga T. para fazer isso), os sonhos, as lembranças, as frases das pessoas, a qualquer momento que surjam. Quando necessário, releio as anotações, aproveito coisas e escrevo sobre o assunto que quero.


A Feira do Livro de Ribeirão Preto mostra a enorme diferença cultural entre duas cidades. Impressionante o volume de atividades ligadas à literatura e a quantidade de pessoas que circulavam buscando livros. Aqui, além de nem ter mais livrarias, a própria Feira inventada pelo Luiz Cruz acho que nem existe mais e nunca passou de alguns poucos estandes de abnegados, sem nenhuma atração externa, limitada apenas aos autores locais.


Aliás, um dos problemas culturais de Franca é a visão atrasada do prefeito Sidnei, que prometeu revolucionar o setor e tirou um Zero igual do livro do Loyola. Faz um teatrinho de bolso para seus colegas, exposições acadêmicas de um pequeno grupo e mais nada, nem o prédio histórico da AEC conseguiu preservar. Só olha para o próprio umbigo. Por falar nisso, lembro que no dia em que minha filha casou, cortando o cordão umbilical com os pais, na pequena recepção após a cerimônia religiosa na Capelinha, correu um boato que o Loyola Brandão estava presente. Meu irmão, ao saber disso, viu uma cabeleira branca como a do Loyola em meio aos convidados e para lá rumou célere, disposto a tirar a dúvida.


Era mesmo um boato. A cabeça branca era, na verdade, do nosso amigo e arquiteto Chico Sad. Loyola Brandão estava presente, mas de outra forma, em nossas vidas: com a sua literatura e exemplo.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor