A comercialização dos produtos de primeira necessidade era feita através das vendas, dos empórios, dos armazéns. Na verdade, vendia-se em tais estabelecimentos gêneros de primeira, segunda, quarta e quinta necessidades. Em suma, vendia-se de tudo.
Os referidos estabelecimentos espalhavam-se por toda a cidade. Só na Rua General Teles, na descida até minha casa, além do velho Mercadão, havia pelo menos dois. A venda do Mamede ficava na esquina com a Praça Nove de Julho. A do Napier situava-se na Couto Magalhães, quase na esquina da General. Com uma grande cesta de taquara, Elias Hadad, comerciante de secos e molhados na Rua General Osório, entregava as encomendas de seus fregueses de casa em casa. Entregas a domicílio também eram feitas pelo Empório Coelho. Ao que me lembro, era o único que as fazia através de um furgão cinza-fosco em cujas laterais havia o desenho de um coelhinho.
José Gonçalves, antes de comprar a Empresa de Ônibus São José , antes de se tornar um rico fazendeiro, chegou a possuir um armazém no antigo Distrito da Estação. Vendia de tudo: sal, arroz, feijão, banha, batata, farinha, groselha e o famoso fumo de corda. Num daqueles dias quentes e agitados, entrou no seu comércio um freguês à procura de um bom fumo de corda. Zé Gonçalves, com a solicitude de um comerciante experimentado, colocou no balcão um rolo. O freguês tirou do bolso o canivete, picou um pouco do fumo, enrolou numa palha e pitou. Soltou grandes baforadas e, ao mesmo tempo, uns traques que infestaram o ambiente com um mau cheiro insuportável. Com a maior cara-de-pau, ele voltou-se para o comerciante e pediu:
-O senhor não tem aí um fuminho mais forte?
José Gonçalves, que era gago, quanto mais nervoso ficava mais tartamudeava, não agüentou o imperturbável cinismo do freguês. Virou-se para ele e desabafou:
-Olha aqui, meu senhor: o de fa fa ze ca ca ga cabou; só só tem esse de fa fa ze pe pe ida!
Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras