16 de março de 2026

Vai explodir


| Tempo de leitura: 5 min
O trânsito é apenas a febre evidente de um paciente que sofre com enfermidade grave

‘Em economia, é fácil explicar o passado. Mais fácil
ainda é predizer o futuro. Difícil é entender o presente’
Joelmir Beting,
jornalista brasileiro

 

FM 92,1. No rádio, mudar a frequência do dial para sintonizar esta emissora é imperativo para qualquer viajante que se dirija por via terrestre à capital. Pouco importa por qual rodovia você se aproxima de São Paulo, reza a prudência e o bom-senso que a 60 km de lá, quando já é possível captar suas transmissões, você interrompa o que estiver ouvindo e passe a prestar atenção no que esta emissora tem a dizer. Pode fazer uma diferença enorme na sua vida.


A rádio Sulamérica é uma emissora atípica. Apesar de transmitir em FM, quase não toca música. Também não tem programas de variedades, seus comunicadores não são ídolos do grande público e a rádio tem praticamente um único anunciante, que dá nome ao prefixo. Mas o que a rádio faz é fundamental para quem chega a São Paulo. Informa, 24h por dia, sete dias por semana, o ano inteiro, a situação do trânsito - sempre infernal - naquela que é a sexta maior aglomeração humana do mundo, atrás apenas de Istambul (Turquia), Deli (Índia), Karachi (Paquistão), Xangai (China) e Mumbai (Índia), a maior de todas.


Quem vai com alguma frequência a São Paulo conhece bem o drama, que só tem piorado, ano a ano. O problema é tão angustiante que dá até saudade do tempo em que a gente conseguia pelo menos prever o congestionamento. Até uns dez ou quinze anos atrás, a lógica indicava que fora do horário de rush, entre 7h30 e 10h e das 17h às 19h30, era possível trafegar com algum ritmo. Sexta-feira era sempre ruim - ou quando chovia - mas, de resto, o quadro era aceitável. Nada disso faz mais qualquer sentido. Não há mais dia da semana ou mês do ano, nem faz diferença se é manhã, tarde ou noite, o trânsito é sempre ruim. Parece absurdo mas, em alguns horários, dirige-se à risível média de meio quilômetro por hora. Se engatinhar, chega mais rápido.


Senti na pele o tamanho do problema pela última vez há duas semanas. Tinha que ir a São Paulo para uma reunião da APJ (Associação Paulista de Jornais) confirmada poucos dias antes. Depois de dezenas de ligações para dezoito hotéis diferentes, nossas secretárias já estavam desesperadas. Simplesmente não havia um único quarto disponível para a noite de terça-feira. Meu compromisso era na manhã seguinte. O máximo que conseguiram foi uma reserva de quarta para quinta-feira. Antes disso, nada.


Sem opção, decidimos sair de madrugada e seguir direto para a reunião. De Franca a São Paulo foi fácil. Saímos às 4h30 e antes das nove tínhamos vencido os 400 km. O mesmo não dá para dizer do trajeto entre o início da marginal Pinheiros e a alameda Gabriel Monteiro da Silva, altura do cruzamento com a brigadeiro Faria Lima, onde fica a sede da APJ. Foram quase duas horas de incontáveis movimentos de acelera-breca-acelera. Sem trânsito, o percurso não levaria quinze minutos. Chegamos em cima da hora. Muitos se atrasaram. Motivo, um só: congestionamento, é claro.


Terminada a reunião, fim de tarde, hora de seguir para o hotel, que fica na mesma Faria Lima onde estávamos. Apenas 2.200 metros nos separavam do destino. De carro, percurso de cinco minutos. Sem trânsito, é claro, o que não existe mais. Às 18h30, estava tudo entupido. E lá se foi outra hora e meia jogada fora no interminável acelere-breca-acelera. Exaustos, nos registramos e desistimos de jantar. Qualquer saída significaria mais trânsito e espera. Melhor ficar no quarto porque, na manhã seguinte, de um jeito ou de outro, tínhamos que enfrentar o trânsito e pegar a estrada de volta.


Gosto muito de São Paulo mas, nos últimos anos, as idas à Capital têm perdido qualquer encantamento. Para tudo há fila e longas esperas. O trânsito é apenas a sua expressão mais visível, a febre de um paciente que tem enfermidade grave. A megalópole de 19 milhões de habitantes simplesmente não tem infraestrutura capaz de comportar tanta gente. Não há hotéis suficientes, os restaurantes não comportam as hordas de clientes, as vagas nos estacionamentos são sempre escassas e não resolve tentar se refugiar num shopping, onde há mais fila para qualquer coisa que se deseje fazer, de tomar café a assistir um filme. Os aeroportos também estão com sua capacidade esgotada e não há horários disponíveis para pousos. Quem decide implantar uma nova rota tem que aceitar horários ruins ou se conformar com Cumbica, muito distante do Centro. O mais provável é que a companhia aérea nos repasse os dois problemas: horário ruim, em Cumbica.


Passamos gerações sonhando com o ‘Brasil, país do futuro’. Nos últimos dez anos, 31 milhões de pobres passaram a fazer parte da classe média. Estudos sérios indicam que, até 2014, se a economia continuar a crescer neste ritmo, outros 14 milhões vão ingressar no mesmo clube. Estaremos então reduzidos ao menor índice histórico de pobreza, com apenas 8% da população fora das faixas de consumo. A taxa de desemprego é mínima - apenas 7,5% do total de trabalhadores - e temos pela frente o desafio de organizar uma Copa do Mundo (em 2014) e os Jogos Olímpicos (em 2016), em sequência.


A saturação na capital paulista é mais evidente, mas problemas semelhantes, em menor grau, acontecem em muitas outras cidades brasileiras onde dificuldades como congestionamentos e falhas de infraestrutura - além da violência - são crescentes. Durante décadas, governos distintos de partidos diversos ignoraram o problema. Agora, a urgência é grande.


Se o seu destino é a capital paulista, de carro, ainda dá para sintonizar em FM 92,1 e acompanhar as dicas das ‘rotas alternativas’ que são passadas pelo pessoal da rádio Sulamerica Trânsito. Não resolve, mas ajuda um pouco, Quanto à infraestrutura, não conheço nenhum atalho. O futuro chegou. Temo que não estejamos prontos.

 

CORRÊA NEVES JÚNIOR 
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br