09 de julho de 2026

Mãe e filha: duas gerações à sombra da aids


| Tempo de leitura: 4 min
EM FAMÍLIA -A dona de casa S e a filha P, de 16 anos, são portadoras do vírus da aids. Bebê de um ano e oito meses não foi infectada pela doença

Toda vez que sai para a balada, P, de 16 anos, carrega na bolsa o batom, rímel e camisinha. O preservativo não é apenas para evitar gravidez e se prevenir de doenças sexuais, mas para não contaminar o parceiro. P tem o vírus HIV. Nasceu com aids. Seus pais eram soropositivos, mas só descobriram a doença após seu nascimento.


P é a quarta de cinco filhos de S, 41 anos. Nasceu prematura, no sexto mês, e desde as primeiras semanas sofria com infecções. Tinha dores de ouvido, garganta e pneumonia. A família só descobriu que a criança estava contaminada pelo vírus da aids quando P estava com sete meses. Com forte infecção e caroços pelo corpo, a criança foi encaminhada para um infectologista, que solicitou exame de HIV. S precisou esperar dois meses até ter os resultados em mãos e, para surpresa dela, foram positivos o dela e o da filha. “Na hora que o Antônio Jorge (médico) me deu a notícia, achei ruim com ele e pulei na garganta dele. Não estava esperando aquilo. A impressão era que o dia tinha virado noite”.


S descobriu que tinha aids numa época em que a doença era sinônimo de morte. Ela viveu momentos de desespero. “Me deu uma depressão grande. Fiquei 15 dias sem andar porque visualizava o Cazuza na minha frente e pensava: vou morrer, vou deixar meus quatro filhos sem criar e ficar careca naquele estado horroroso que a doença deixava”. O cantor Cazuza morreu aos 32 anos, em 1990, vítima da aids.


A dona de casa enfrentou o fantasma da doença como uma avalanche em sua família. Além dela e a filha bebê de sete meses, descobriu que o ex-marido tinha aids. “Quando conheci meu ex-marido fazia um ano que tinha parado de usar droga injetável. Ele fez o exame e deu positivo. Tive que ter força para suportar a doença em nós três. Foi um inferno”.


Ele não suportou lidar com a doença. Não seguiu o tratamento corretamente. Inconformado e revoltado por ter contaminado a mulher e a filha, buscou refúgio nas drogas. “Chegou num ponto que tive de escolher ter minha vida e criar meus filhos ou morrer junto com ele. Escolhi viver”. Os dois acabaram se separando depois. Em fevereiro deste ano, ele morreu afogado em Rifaina.


S acredita que a filha tenha sido contaminada pelo leite. “Insisti em amamentar porque achei que estava fazendo bem para ela, que era prematura. Quando cortei a amamentação, já era tarde, ela já tinha contraído o vírus”.


A REVELAÇÃO
Para evitar que o HIV desenvolva a doença em seu corpo, P começou a tomar xarope contra aids aos três anos. A partir dos 7, quando conseguia engolir, mudou para medicação em comprimido. A mãe dizia que os remédios eram para fortalecê-la porque tinha nascido prematura. “Nem passava pela minha cabeça que era porque eu tinha aids”.


P só soube que era soropositiva aos 12 anos. A mãe não teve coragem de contar. Pediu ajuda a um médico. Só então, P, que pouco sabia sobre a doença, passou a ler mais sobre o assunto. P toma um comprimido pela manhã e dois à noite. “Sinto um pouco de tontura quando tomo”.


A revelação foi um momento difícil para a mãe. “Era uma bomba nas minhas costas. Tentei contar, mas sozinha não tive coragem”.


A adolescente está com 16 anos e não revelou para ninguém que é portadora do vírus da aids. As amigas nem o namorado que teve aos 13 anos sabem. O medo é sofrer preconceito. “Na escola percebo muitas meninas preconceituosas. Às vezes pego livros sobre aids para ler e vejo na cara delas o preconceito e isso é ruim”, disse ela, aluna da 8ª série. “Quando vou tomar os comprimidos perto das minhas amigas, falo que é para outra coisa e escondo o nome para não descobrirem”.


P, que sonha se casar e ter filhos, irá revelar a verdade apenas para o marido. Enquanto isso, só se relaciona usando camisinha. “Não conto para eles por medo de preconceito, mas me previno sempre”.


GERAÇÃO
S é mãe de cinco filhos, de 23, 19, 17, 16 e 1,8 ano. Apenas a filha de 16 anos foi contaminada pelo HIV. Os dois primeiros são fruto do seu primeiro namoro. As outras duas são filhas do ex-marido, que conheceu quando tinha 22 anos. Ele morreu no início de 2010. Até quatro meses atrás, S estava morando com outro companheiro, com quem teve a filha caçula. A criança não foi planejada. “Não imaginava engravidar e ter outro filho com 40 anos. Pensava que estava na menopausa, mas era gravidez”. Mesmo sabendo que era soropositiva, o ex-namorado se recusava a usar camisinha. Os dois romperam porque ele se envolveu com drogas. “Sempre achei irresponsabilidade, mas ele não aceitava usar preservativo”.


Para proteger a filha caçula da contaminação pela aids, S tomou remédios específicos para grávidas e a bebê recebeu um xarope durante as seis primeiras semanas de vida para ajudar a barrar a doença em seu organismo. “Tomamos o medicamento certinho por isso tive essa vitória que é ver minha bebê livre da aids. Tinha trauma de por mais um filho no mundo com esse problema, mas foi só um susto”, disse a mãe. A criança foi acompanhada durante um ano e meio no ambulatório DST/Aids e não tem o vírus.


Os nomes não foram divulgados para preservar as entrevistadas.