A fumaça sobrevoa as casas de zinco. É inverno e a maneira mais barata de se manter aquecido por aqui é queimando carvão. Soweto, a maior township (distrito) da África do Sul (com aproximadamente 1,3 milhão de habitantes, segundo dados do governo sul-africano), é um universo paralelo na metrópole de Joanesburgo.
É uma localidade com vida e história próprias, um passado que por si só é suficiente para fazer as pessoas voltarem seus olhos de um modo todo especial para o país. Fundada em 1903, mas utilizada pelo regime apartheid (1948-1990) a partir da primeira metade do século 20, Soweto nasceu da exclusão, tornou-se a morada dos negros que foram forçados a serem isolados da “civilização branca”.
No entanto, décadas depois, sentimos na pele que a melhor resposta que Soweto dá ao mundo é a inclusão, a receptividade, o senso de humanidade - valores que se traduzem numa só palavra africana, Ubuntu (no dialeto xhosa).
Nem só de shacks (casas feitas de zinco e sem banheiro) vive Soweto. No distrito, é possível encontrar gente de todos os padrões econômicos, o que se reflete em casas de diferentes acabamentos e em uma vida turística cada vez mais pulsante. Há famílias e pequenos hotéis que recebem turistas interessados no contato com essa realidade.
Entre as referências que se apresentam aos visitantes está a Walter Sisulu Square (um grande pátio, espécie de uma praça), que simboliza os dez pressupostos da nova constituição sul-africana através de um grande monumento. Há também a famosa casa de Nelson Mandela, numa convidativa rua, além de belos parques e campos de golfe. No meio das avenidas podem ser vistas esculturas de animais à venda. Outra evidência do desenvolvimento da township é a existência de um campus da Universidade de Joanesburgo.
A primeira parada da reportagem do GCN no distrito de Soweto foi numa área com ruas de terra e casas simples, porém melhores que as shacks. Ao estilo de um projeto habitacional popular brasileiro, as residências, de concreto, foram construídas há três anos. Um dos moradores é Johaness, 46 anos. Nascido em Soweto, ele está desempregado, mas costuma fazer bicos - como reformas em construções do bairro - e receber ajuda de familiares para sustentar seus sete filhos e sua mulher Theodora, 43.
Antes de estar ali, a família vivia em uma shack em Kliptown (espécie de bairro), dentro de Soweto, mas conseguiu um lugar melhor com a ajuda do governo. A casa em que Johaness vive tem quatro cômodos - sala, quarto, cozinha e banheiro - e é bem simples. A moradia é mobiliada com armários, geladeira, fogão e televisão. Aos domingos, a família costuma ir aos cultos da Igreja Universal do Reino de Deus.
O sul-africano comentou que, desde que o apartheid acabou e que Nelson Mandela foi libertado (1990), muitas coisas mudaram. “Se você vivesse em uma província fora de Joanesburgo, como Soweto, você tinha que ter uma permissão para trabalhar. Se você fosse encontrado no lugar errado, depois do horário, ia preso. O que se esperava de você era que fosse trabalhar na parte branca da cidade e depois do trabalho voltasse”, relembrou Johaness, que chegou a ser preso cinco vezes pela polícia do regime de segregação racial.