Garra e muito esforço sempre marcaram o futebol de Marcos Ronaldo Dutra em seu tempo de jogador profissional. Sua história é pródiga. Dutra cumpriu todas as etapas da vida de um profissional da bola de sucesso, exceção feita a uma: ganhar dinheiro. Nasceu em Pato Branco, no Paraná, jogou futebol de salão, passou a adolescência no Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, profissinalizou-se em Goiás. Jogou no Japão, esteve na Alemanha e atuou em times tradicionais de São Paulo, como Araçatuba - quando integrava a 1ª Divisão -, Comercial, Francana e Sãocarlense.
Era natural conseguir fama, dinheiro e uma vida com padrão semelhante a de astros do futebol, principal esporte do País. Certo? Não. Pelo menos não foi assim para Dutra. Hoje, aos 34 anos, ele tem mulher, dois filhos e está feliz. O futebol não é exatamente uma ferida, mas é, sem dúvida, uma lembrança menos agradável do que gostaria: “Me desiludi muito com o futebol”.
O universo futebolístico é perverso. Dutra se considera prejudicado por calotes atribuídos a dirigentes que montavam times caros, mas só pagavam caso vitórias fossem conquistadas. Nunca juntou dinheiro. “O mês neste meio muitas vezes tinha 90 dias. Quando recebíamos, só dava para pagar os atrasados”. A falta de uma orientação profissional, sem dúvida, também pesou. Ao longo de sua trajetória há muitos relatos de momentos em que se sentiu perdido, sozinho, fragilizado e sem saber o que fazer. Essas circunstâncias o levaram a tomar decisões e abrir mão de oportunidades diversas que se abriram.
Aos 26 anos, acabou por trocar o sonho de uma vida pelo sustento de sua família. Sem ter outra profissão, recorreu a amigos do futebol para conseguir um trabalho modesto e, logo em seguida, voltou aos estudos, que ele havia abandonado quando tornou-se atleta do Vasco. Por três anos, trabalhou como entregador de gás. Passou a motorista e atualmente dirige os carros do GCN Comunicação. Diz ter melhorado muito e estar tranquilo, pois cria seus filhos ao lado da mulher, uma auxiliar de enfermagem, sem os sobressaltos da vida de atleta.
Em tempos de Copa, Dutra - que não discorda da escalação de Dunga (diz que só faria diferente convocando Paulo Henrique Ganso, sem escalá-lo como titular) e tem no Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda as apostas de melhores resultados do mundial - conta um pouco do glamour (ou da falta dele) no mundo do futebol. Lembra das alegrias e decepções que viveu no universo esportivo, mas demonstra que, em que pese as dificuldades, o importante é manter a bola rolando. Mesmo que seja fora do campo.
Comércio da Franca - Você deixou o futebol profissional aos 26 anos. Por que esta decisão?
Marcos Ronaldo Dutra - Deixei o futebol em 2001. Parei porque os clubes não pagavam salário direito. Eu jogava e não recebia. Eu era casado, tinha dois filhos (Ana Carolina e Douglas Matheus, hoje com 11 e 10 anos, respectivamente) e precisava do serviço, de dinheiro. Como não ganhei muito com o futebol, tive de partir para um trabalho convencional.
Comércio - Não foi precipitado parar com tão pouca idade?
Dutra - Tive uma desilusão muito grande com o futebol. Você treina todo o dia, joga, se esforça. Em alguns lugares, os treinos são realmente puxados. Mesmo com todo o esforço, muitas vezes eu ficava sem receber se o time perdesse. Não existe no contrato de ninguém a obrigação de vencer para ter salário, mas os dirigentes diziam que não pagavam porque os jogos não davam renda.
Comércio - É verdade que os dirigentes registram os jogadores com um salário mínimo e ignoram, por exemplo, o recolhimento do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço)?
Dutra - Tenho poucos registros em carteira do tempo em que eu era jogador profissional. Poucos depositaram FGTS. Para ser exato, o que sempre chega lá em casa é uma cartinha com FGTS de R$ 20. É da época que joguei na Francana.
Comércio - Qual o maior calote que recebeu?
Dutra - Fiquei cinco meses na Sãocarlense. Se recebi um, foi muito. Eles falavam que não tinham dinheiro e ficou por isso mesmo. Entrei na Justiça, mas a decisão ainda não saiu. Joguei a Série A-1 de 1997 no Araçatuba. Eles também me devem e esta situação se arrasta até hoje. Se quem me deve pagasse, eu receberia valores suficientes para comprar uma casa. No Araçatuba, eu ganhava R$ 7 mil por mês. O time era forte. Tinha o Gilberto, o Jura, o Pedro Luiz, o (Dorival) Júnior, hoje técnico do Santos. Meu histórico de não recebimento é grande e inclui agremiações como Comercial de Ribeirão Preto e Caxias do Rio Grande do Sul. Para minha surpresa, o Sertãozinho, da Série B-3, me pagou direitinho. Lá ganhava até “bicho”.
Comércio - E onde fica esse glamour que vemos na TV ao redor dos jogadores?
Dutra - Ele existe quando você está em time grande. A situação envolve patrocinador do clube, patrocínio pessoal, mídia. Fora disso, precisa de uma boa estrutura, algo que não é todo clube que tem. A começar das categorias de base.
Comércio - A Francana ainda te deve algo?
Dutra - Não. Me propuseram um acordo e eu aceitei, pois morava aqui. Desde quando cheguei, me identifiquei com a Francana. Eu deveria ter jogado mais campeonatos, ter feito uma história maior no clube. Mas a gente vai ouvir empresários, né? Fui para o Caxias, outros lugares e então parei.
Comércio - Como você começou esta vida?
Dutra - Nasci em Pato Branco, no Paraná, e, desde os sete anos, jogava futebol de salão. Cheguei a viajar muito para defender um time de Cascavel. Um empresário me levou para um teste no Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Eu e mais quatro garotos fomos aprovados em meio a 2500 moleques. Quem me chamou foi o Jairo Leal, ex-técnico de seleções de base, e auxiliar do Parreira em vários momentos. Eu era cabeça de área e fiquei lá de 1990 a 1995. Treinei, joguei, fiz gols, me firmei no clube. Dormi lado a lado com o Jardel, Preto Casagrande, Ian, Gian, Pedrinho, Felipe e vários outros.
Comércio - E por que não deu certo no Vasco? Você jogava de volante e zagueiro. Para atacante, chegar ao profissional é mais fácil?
Dutra - Ser atacante torna o caminho mais fácil mesmo. Mas o futebol é assim: no infantil, o funil é grande. No juvenil, ele diminui. Nos juniores, mais ainda. Para subir ao profissional, é um ou outro garoto. Poucos da minha época chegaram ao profissional. Você tem de ter muita estrela e estar jogando bem. No Vasco, nós ganhamos o Estadual e o Brasileiro juvenil. O destaque ficou com quem marcava os gols.
Comércio - Você foi para o Japão com o Vasco?
Dutra - Fui. Eu e outros 15 meninos do Vasco viajamos em junho de 1996. Vencemos cinco de seis partidas em duas semanas. Acabei convidado para ficar. A chance era boa e poderia me profissionalizar em seis meses no Gamba Osaka, um time de expressão no Japão. Avisei minha mãe por telefone e não voltei com a delegação. Só que a saudade venceu. A cultura japonesa é muito diferente. Eles são exigentes com horários. Os campos são verdadeiros tapetes. Tudo é muito organizado. Eu dormia debaixo da arquibancada do estádio. Era um miniapartamento. Tinha lavadeira, passadeira, alimentação. Só tive problema com a comunicação. Era só por mímica. Passei a treinar mal sem meus companheiros. A saudade apertou. Chorava muito quando estava sozinho no quarto. Lá me deu saudade da minha mãe. Aqui no Brasil, quando sentia isso, eu pegava um ônibus. Acabei pedindo para voltar. Cheguei ao Rio no início de dezembro e sem dinheiro. Fui direto para o Paraná, pois passei oito meses sem ver meus pais. A idéia era voltar ao Vasco, mas a idade não dava. Aos 20 anos, em 1996, fui emprestado ao Goiatuba, de Goiás. Eles não me pagaram e eu peguei meu passe. Conheci o José Carlos Serrão (técnico) e vim para o Estado de São Paulo. Acabei virando um cigano do futebol.
Comércio - E a seleção brasileira, permeou seus so nhos?
Dutra - Eu ia pegar seleção brasileira. No Vasco, vencíamos um jogo por 7 a 1 quando, aos 40 minutos do segundo tempo, fui virar uma bola e senti o joelho (lesão de menisco). Depois, o Jairo Leal foi ao vestiário e me falou que meu nome estava na lista para viajar com a seleção para a Itália. Íamos eu e mais quatro atletas do Vasco.
Comércio - Sua chegada a Franca foi em 1997. Quanto tempo jogou aqui?
Dutra - Eu vim para o Araçatuba e depois para a Francana onde cheguei em 1997. Joguei 1998, 2000 e 2001. Conheci minha mulher no primeiro ano e depois meus filhos nasceram. Aqui comprei meu primeiro carro e disputei campeonatos importantes como o Brasileiro da Série C. Chegamos quase à final. Perdemos o acesso em uma partida no Castelão contra o Sampaio Correa. Oitenta mil pessoas foram àquele jogo. Precisávamos da vitória, mas perdemos. Faltou estrutura para a Francana pois deveríamos ter ido dias antes do jogo. A viagem era longa e fomos na véspera. Nossas pernas estavam inchadas por causa da viagem quando entramos em campo. Levamos o primeiro tempo para nos encontrarmos. Já estávamos perdendo o jogo quando “acordamos”. Em 2000, orientado por empresários, tentei a sorte em outros lugares, inclusive na Europa.
Comércio - Queria passa-porte comunitário? A partir de qual país?
Dutra - Sim. Tinha esperança de jogar e tirar passaporte comunitário entrando pela Alemanha e aproveitando ascendência italiana. Eu jogava na Sãocarlense quando um empresário brasileiro me levou. Lá outro empresário me colocou para treinar em um clube. Não deu certo e fui para outro. Passei a jogar de meia-atacante. Marquei nove gols em cinco jogos. Eu estava no auge da forma física. Cheguei a assinar contrato, tenho eles guardados. No entanto, acho que eles (empresários) pediram muito e não fiquei. Disse a eles que era para agir diferente. Eu iria ganhar o correspondente a R$ 10 mil livres de imposto e moradia para jogar num time da 3ª Divisão. Só tinha de aprender a falar alemão. Aqui nunca vi isso. Eu mandaria dinheiro para minha mulher e poderia finalmente me estruturar. Depois com passaporte comunitário as portas estariam abertas na Europa. Todos sairiam ganhando, mas eles dificultaram. Fiquei só treinando, treinando, treinando. Depois de seis meses, com o visto vencido e vivendo de favor na casa de um italiano, procurei a polícia para poder voltar ao Brasil. O empresário não queria pagar minha passagem. A polícia o obrigou a pagar e retornei para casa em 10 de dezembro. Perdi o passaporte, pois ele ficou bloqueado por cinco anos e não podia voltar para a Europa. Voltei quebrado. Para piorar, o Douglas havia nascido e eu nem o conhecia. Ao vê-lo, ele não sabia quem eu era.
Comércio - Foi então que decidiu abandonar o futebol?
Dutra - Pouco tempo depois. Fiquei com raiva disso tudo. Joguei mais um campeonato na Francana. Foi difícil. Não recebemos direito. Eu conversava com minha mulher. Só ela trabalhava, tínhamos crianças pequenas e faltava “a parte financeira”. Eu não estava recebendo. Comecei a procurar serviço.
Comércio - Como seu pai reagiu quando soube de sua decisão de abandonar um sonho de infância?
Dutra - Meu pai sempre acreditou em mim. Era ele que me punha na caçamba de uma camionete para ir jogar bola aos sete anos. Como eu comecei em time grande, podia ter seguido. Ele deveria ter me visto jogar em time grande. Quando ele morreu, em 2005, eu senti que ele estava um pouco desiludido comigo. Se eu pudesse encontrá-lo de novo, eu gostaria de falar... sei lá... não deu. Sinto que deixei a desejar a meu pai.
Comércio - E como começou no novo emprego?
Dutra - Um amigo (Tadeu, ex-lateral-direito da Francana) estava numa empresa que entregava gás de cozinha e me deu uma força. Esta empresa abriu as portas para mim, pois eu só tinha o primeiro grau.
Comércio - Você sentiu vergonha ao sair na rua para vender e entregar gás?
Dutra - A primeira vez que saí foi junto com o Pinóquio e o Kledir, que me conheciam, pois eram torcedores da Francana. Eles me ensinaram como trocar o gás e atender às pessoas. Na primeira vez, depois de três quarteirões, uma pessoa me reconheceu. Fiquei com vergonha. Mas disse: “estou aqui trabalhando, o futebol não deu certo e tive de partir para outro lado”. Ela respondeu: “pô, mete bronca aí”. Ela me incentivou assim como minha mulher. Com o tempo, isso passou.
Comércio - Quanto perdeu com essa mudança?
Dutra - Meu último contrato era de R$ 2 mil mensais, mas não recebia. Como entregador ganhava R$ 800. Deu uma caída brusca, mas era garantido. Antes tudo era uma incógnita. O mês tinha 90 dias e, ao recebermos, muitas vezes nem era tudo. Nesse tempo, as contas acumulam. Ao pegar o dinheiro, não sobrava nada. Meu emprego me possibilitou pagar minhas contas, equilibrar minha vida. Voltei para a escola e fiz o segundo grau no supletivo. Lá só tinha entregador e motorista. Depois de três anos, subi de cargo depois de tirar carteira para caminhão. Deixei até de morar na casa de meu sogro.
Comércio - As coisas melhoraram...
Dutra - Cada vez mais. Não tenho nada do que reclamar. Agora consegui um lugar aqui no GCN. Ainda sou muito conhecido no meio do futebol, mas estou bem. Em todos os lugares que passei, sou convidado a jogar no time da empresa. Até onde não tinha equipe, eles formavam e me chamavam para participar de jogos por aí.
Comércio - Hoje, o Dutra é motorista, pai de família e está à espera de seu terceiro filho. Tem algum sonho?
Dutra - Não acompanhei o nascimento de meus dois filhos. Agora minha mulher está grávida de quatro meses. Ela me exigiu que eu acompanhe tudo. Esteja presente. Prometi inclusive assistir ao parto. Só espero não desmaiar ...