Não há mais informação privativa. Há como saber praticamente tudo sobre todos e sobre qualquer coisa, em tempo real. Basta acessar o internet, ouvir rádio, ver televisão, ler jornais e revistas, conversar, olhar para o lado. As pessoas deveriam ser melhores por causa disso, mas não são.
Em tempos imemoriais, segundo a mitologia grega, Zeus, o Deus dos Deuses, modelou em argila a primeira mulher, Pandora. Epimeteu, outro deus, a tomou por mulher e deles nasceram os humanos. Epimeteu guardava consigo uma caixa presenteada por seus pares onde estavam fechados todos os males do mundo. Pandora, não resistindo à curiosidade, abriu. Assustada, fechou quase imediatamente, mas os males que ainda hoje afligem os homens já estavam livres. Apenas a Desesperança não escapou da caixa. A Esperança, não vencida, continua por ai mantendo acesa a chama de que é possível vencer todos os males, desde que façamos a nossa parte.
Foi assim que o mundo viu grassar a Vaidade, a Inveja, a Ira, a Preguiça, a Avareza, a Gula, a Luxúria.
Pereceram, ou tornaram-se menos fortes a Castidade, vencida pela Luxúria; a Generosidade, que se opõe à Avareza; a Temperança, oposto da Gula; a Diligência, vencida pela Preguiça; a Paciência, que mantinha a Ira serena; a Caridade, contrária à Inveja; e a Humildade, vencida pela Vaidade.
Certamente conhecemos exemplos desta eterna guerra. Há os têm muito mas querem mais e não se importam com meios éticos de obter; os invejosos, capazes de secar plantas apenas com o olhar; os abusadores, que se utilizam dos poderes hierárquicos para desonrar, estuprar, pisar; os preguiçosos, que não entendem porque não dão certo na vida; os vaidosos, incapazes de perceber que humildes poderiam mais ao ameaçar menos. Ainda assim, por causa da Esperança, há ainda quem acredite que o bem pode vencer o mal; que todos sejam dignos de confiança; que é preciso ser bom e manter-se paciente quando chutar o balde parece ser a coisa ideal a ser feita.
Penso que a Ganância seja o mal que os homens modernos consideram mais "virtuoso". De sua prática derivam sonhos velados, projetos de vida nababescas e outras tendências que, tortamente, definem relevâncias a serem conquistadas a qualquer custo. Mais riqueza, melhores oportunidades para a prática das restantes oportunidades que o mundo oferece...
Vi ontem, no roteiro do Difusora Notícias – programa jornalístico que apresento de segunda a sexta-feira, meio dia, na Rádio Difusora – mais uma notícia sobre "conto do bilhete", aquele em que alguém que se diz analfabeto e incapaz de ir a um banco para sacar os milhões que acaba de ganhar em uma das loterias brasileiras, apresenta um bilhete a um incauto e pede ajuda. Oferece uma parte da fortuna em pagamento. Em contrapartida quer uma parte do dinheiro para dar solução a um problema. O indivíduo procurado "estufa" os olhos. Pensa: pago e ganho dez vezes mais. Gananciosamente aceita. Vai ao banco, tira suas economias, entrega e fica com um pedaço de papel que não vale nada. A vergonha por ter sido enganado impede o registro. O golpe ainda tem um terceiro personagem que surge no momento certo para dizer que se o incauto não fizer, ele faz. A Caixa que Pandora abriu, faz o resto....
Cansei-me de divulgar notícias como essas. Não há limite. As pessoas, principalmente gente de idade, cai quase todos os dias. Não analiso os jovens, capazes de ser gananciosos por conta da inveja mas não digo o mesmo quanto dos idosos. Falta-lhes informação. Em pleno século da comunicação integral e irrestrita, gente de idade – que, repito, não tenho convicção que caiam só por ganância; parece-me que tendem a acreditar nas pessoas, confiar mais do que devem por "ingenuidade genuína" – não lê jornal, não ouve rádio, vê televisão só para assistir o capítulo do dia da novela, conversa pouco. De quebra, não merece da família qualquer orientação sobre o que anda acontecendo no mundo.
Como cultivo a Esperança, continuarei a crer que um texto como este possa remeter as pessoas mais jovens, repletas de informação e sabedoria a que peguem seus idosos e lhes ofereçam Generosidade, Temperança, Diligência, Paciência, Caridade e, principalmente, que sejam humildes. O mundo melhor e mais justo que precisamos construir, agradece.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br