08 de julho de 2026

Jardins...


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Todo ano, nessa época, reservo um tempo para o jardim de casa. É hora de renovar, trocar, inventar canteiros, mudar os antigos vasos não apenas de lugar, mas também de conteúdo.

Não nego, tal necessidade - e consequente interesse - tem muito a ver com os jardins ingleses os quais, por uma ciranda da vida, passei a apreciar amiúde. Veio da China o embrião do estilo paisagístico que os britânicos popularizaram. Além do papel, do macarrão, dos tipos móveis de imprensa e da seda, os chineses ainda contribuíram com a humanidade ensinando aos habitantes da fria e chuvosa ilha como agrupar plantas de forma natural e espontânea, na tentativa de imitar a natureza: eis o inconfundível jardim inglês. Não à toa, são os preferidos dos pintores. Outono e inverno por lá são bastante rigorosos. Quando cai o pesado véu cinza nos parques públicos e canteiros particulares, as flores como que desaparecem. Podam-se as roseiras (a flor nacional), desaparecem as plantas, os canteiros vazios são cobertos com uma terra cinza-escuro, que contém poderosos nutrientes e adubos.


Alguns arbustos resistem ao frio e se mantêm floridos, mas a paisagem é desoladora. Prenunciando a primavera, daquela terra escura brota um raminho verde na grama adormecida. O sol começa a aquecer, as pessoas se movimentam e preparam os canteiros das casas. É a vida em verde retornando. Duas árvores de tamanho médio - do porte do nosso chapéu chinês - florescem da noite para o dia ao longo das ruas, nos bairros: as blossom e suas variedades. Num dia a gente passa perto e os galhos parecem secos; no seguinte, se mostram intumescidos, inchados, brilhantes, grávidos; no outro explodem numa profusão inimaginável de flores em todos os imagináveis tons de rosa.


Em maio, junho, julho e até agosto são realizados festivais, feiras e concursos de jardins domésticos. Jornais trazem informações e sugerem visitas às casas premiadas: por algumas libras pode-se entrar nelas e conferir a justiça do prêmio, a beleza dos jardins e, ainda, tomar um cup of tea and have some cakes... Tentador, não? Jardinagem inglesa não é só passatempo, não.


Bem, por aqui não tem concurso mas, seguindo o exemplo inglês, tomei gosto em preparar meu jardim. A terra está cochilando, descansando; o sol continua brilhando; há dias frios e outros que nem parecem de inverno. Gosto de imaginar que logo, na primavera, terei as ‘camas’ preparadas agora, cheias de agapantos, buganvílias, roseiras, camélias, bocas-de-leão, gardênias, impatiens, lírios-da-paz, ciclames, magnólias, hibiscos, azaléias, prímulas, hortênsias e petúnias. Com esse objetivo, mãos à obra!


Formei uma equipe equilibrada de quatro pessoas empenhadas na tarefa: um chefe que já é avô, uma avó, dois rapazes - pais recentes. Juntos enfiamos as mãos na massa, quer dizer, na terra. Transportamos pedras, transferimos plantas de um canteiro para outro, adubamos, podamos, amarramos galhos desgarrados, discutimos sobre estética das distribuições botânicas. Cuidando do jardim doméstico aprendi grandes lições e preparo meu jardim interno. Aprendi a não teimar: para cada planta há um específico procedimento. Aprendi a ouvir: os ajudantes têm mais prática, sabem avaliar melhor as espécies. Aprendi a respeitar o tempo de cada muda plantada. Aprendi a me conter: não adianta querer fazer tudo a um só tempo. Aprendi a ter esperança: a de ter sucesso e obter êxito com todas as mudinhas plantadas. Aprendi a ter paciência e esperar. Aprendi a replantar. Aprendi até a admitir a possibilidade de ter e encarar alguma frustração pela frente. Aprendi a dosar: excesso e privação são igualmente prejudiciais. A grande lição, porém, destes anos todos em que investi nos jardins, é que depende apenas de mim ter um jardim aprazível para oferecer - gratuitamente - uma xícara de chá e bolo para quem quiser transpor a grade de ferro do meu portão.

 

JARDIM BOTÂNICO
O Kew Gardens – Jardim Botânico Real Kew Gardens – é um dos parques mais completos de Londres e existe desde 1751. Além de espaços especiais como o Jardim Japonês, Canteiros das Rosas, as árvores e o lago, há o Palácio de Cristal, estufa de vidro que abriga laboratório onde são desenvolvidas pesquisas botânicas. Para esse lugar foram levadas mudas de seringueira que ingleses vindos para construir o porto de Manaus roubaram da nossa flora, deslumbrados com aquela planta da qual se extrai a borracha.


BORRACHA
Durante anos, nos laboratórios do Kew Gardens, pesquisadores estudaram a planta que só existia no nosso País e desenvolveram milhares de mudas. Escolheram a Malásia - pela semelhança climática - e lá as plantaram. Demorou, mas quando veio a primeira safra, coisa de trinta anos depois, a produção foi superior ao montante de todas as safras da história da borracha no Brasil. Perdemos, mais uma vez. Cochilamos, o cachimbo caiu.


ROYAL GARDENS
Uma curiosa tradição inglesa existente desde 1860, época da Rainha Victoria, é chamada A Rose Garden Tea with the Queen. Todos os anos Elizabeth II, a exemplo de sua mãe Elizabeth I, abre os jardins do Buckingham Palace especialmente para receber convidadas, em cada uma das três sessões de afternoon tea parties. Há regras de etiqueta que devem ser rigorosamente observadas durante a cerimônia. Uma delas: ‘não se deve levantar a ponta do dedo mínimo ao segurar a asa da xícara’. Esses ingleses...


REFERÊNCIAS
A importância do jardim inglês é reforçada através de diversas referências. Na obra dos Beatles I’m the Walrus, está: ‘Sitting in an english garden, waiting for the sun’. Na deliciosa When I’m Sixty-four, quase no final: ‘Doing the garden, digging the weeds, who could ask for more?’. Nos finais dos filmes de James Bond ele aparece em ensolaradas ilhas. Durante a trama, porém, são incontáveis as vezes em que marca encontro em um dos jardins dos inúmeros parques da cidade onde ele supostamente mora.

 

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br