O Brasil precisa de bons médicos. Necessita, simultaneamente, de uma política de saúde consistente com foco na resolução dos problemas mais prevalentes na nossa população. Enquanto uma só das pontas da assistência permanecer desalinhada, seguiremos amargando mazelas e sujeitando os cidadãos a um atendimento desqualificado e desumano. Pior, não avançaremos no tempo; continuaremos a exibir índices de quarto mundo em doenças como dengue, tuberculose, leshimaniose, hanseníase, entre outras.
É essencial, em primeiro lugar, deixar de lado a mentalidade subdesenvolvimentista. Devemos respeitar nossas peculiaridades e criar soluções adequadas às nossas carências e realidade.
Vejam o que ocorre no campo das especialidades médicas. Há falsos gurus pregando que o remédio para nossa saúde é copiar a organização européia ou americana que segue na linha de quanto mais especialidades melhor.
Faz alguns anos, a Associação Médica Brasileira, o Conselho Federal de Medicina e a Comissão Nacional de Residência Médica do Ministério da Educação promoveram uma revisão geral das especialidades médicas no País. Foram reconhecidas oficialmente apenas 54 sociedades médicas. Foram instituídas as habilitações, hoje áreas de atuação, marco histórico no associativismo brasileiro.
Essas mudanças tiveram importantes reflexos na prática médica e na academia, além de contribuírem para a racionalização dos currículos e para a melhoria dos processos de formação. Surgiu, enfim, uma estrutura condizente com o Sistema Único de Saúde (SUS).
Quando se fala em especialidades médicas é preciso que se compreenda que devem ter como foco o doente e não a doença. Para tanto, necessitamos de profissionais de medicina bem formados e informados, não apenas titulados com diplomas que, em regra, representam reserva de mercado.
Nesta linha de raciocínio é mister entregar os destinos da saúde a quem disso entende. É um absurdo, por exemplo, o Ministério da Saúde falar, por intermédio de não médicos ou de bacharéis de medicina, que defende a formação de médicos para o SUS.
Não há médicos para o SUS, para a medicina suplementar ou para hospitais de excelência. É inadmissível pensar assim. Há, pura e simplesmente, médicos. Todos eles devem ter qualidade máxima para assistir adequadamente aos cidadãos, sejam carentes, de classe média ou mais abastados. Está na Constituição Federal: saúde é direito de todos e dever do Estado.
O mesmo vale para as especialidades médicas: não necessitamos de novas, e sim, de áreas de atuação. Os que vão na contramão dos interesses da sociedade querem formar médicos com competência questionável, mas procuram os melhores profissionais, segundo uma ótica frequentemente míope, para cuidar de si e de seus familiares.
Antônio Carlos Lopes
Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica