16 de março de 2026

Nada a ver


| Tempo de leitura: 4 min
O vereador Bahia quer obrigar os cinemas a exibir mensagens contra a pedofilia. É um projeto inútil.

“São curtos os limites que separam a resignação da hipocrisia”
Francisco de Quevedo,
escritor espanhol

 

O vereador Josivaldo Bahia (PTB) apresentou, na reunião da última terça-feira, proposta de um projeto de lei que, se aprovado, obrigará as salas de cinemas de Franca a exibir, antes de cada sessão, mensagens de alerta e advertência contra a pedofilia. “Os cinemas recebem grande número de crianças e adolescentes. Acredito que a aprovação da lei abrirá um novo canal para denunciar crimes sexuais e orientar a população”, defendeu o vereador em entrevista ao Comércio. Pastor Otávio, presidente da Comissão Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e também vereador, fez coro ao colega de legenda. “Pequenas medidas como estas podem beneficiar a comunidade. O abuso sexual acontece pela fragilidade da vítima. Temos de ampliar as fontes de informação”.


O projeto, baseado em premissas completamente equivocadas, é inútil. Se aprovado, o que é bastante provável, trará contribuição zero ao fundamental combate aos abusos sexuais praticados contra crianças. Ninguém precisa ser especialista em pedofilia ou crimes sexuais para chegar a idêntica conclusão. Diferente do que parecem imaginar os vereadores Bahia e Pastor Otávio, não é falta de informação o principal problema enfrentado pelas vítimas de pedofilia. Todos - vítimas, abusadores e a sociedade - sabem que a pedofilia é uma aberração, um crime indefensável. É raro haver pedófilo idiota a ponto de alegar “ignorância” sobre suas atitudes e, no mundo todo, manter relações sexuais com crianças - aconteça ou não penetração - é considerado abominável.


No Brasil, sexo com quem tem menos de 14 anos é crime. Na absoluta maioria dos casos, as vítimas de pedófilos sabem que estão submetidos a uma situação de extrema violência, absurda e covarde, e que precisam de proteção. O problema é como consegui-la. Neste ponto, há um profundo equívoco no projeto proposto por Josivaldo Bahia. O drama das vítimas não é para quem gritar socorro. Em grande parte das ocorrências, elas bem que tentam. O difícil é se fazer ouvir. Quer seja por medo, conveniência, comodidade ou hipocrisia, a imensa maioria dos que recebem os pedidos desesperados de ajuda destas frágeis vítimas preferem o silêncio e o distanciamente. Reféns de dogmas e preconceitos muitas vezes medievais, trocam a ajuda que seria imperativa por um terrível silêncio. Preferem se afastar e condenar as vítimas indefesas à própria sorte a tentar fazer alguma coisa e correr o risco de se meter na lama que envolve casos desta natureza.


O caso que envolve o padre Dé é emblemático. O sacerdote é acusado de coagir jovens que participavam de seus trabalhos pastorais a práticas sexuais. O padre nega as denúncias e diz que os jovens podem ter se “confundido” com suas “brincadeiras carinhosas”. Uma delas consistia em chamar os meninos, na maior parte dos casos garotos que pretendiam seguir uma vida religiosa, para participar da “brincadeira do pirulito”, cuja própria denominação admitida pelo padre é autoexplicativa. Se é que em algum momento foi uma brincadeira, era de inegável mau gosto. Para a polícia, nada havia de lúdico nesta história. A conclusão do inquérito foi pela responsabilidade de Padre Dé. O religioso hoje responde a um processo na Justiça Criminal, além de ser suspeito de integrar uma rede de pedofilia investigada por uma CPI do Senado Federal.


É difícil aceitar que as denúncias contra o Padre Dé tenham permanecido tanto tempo sem que ninguém tomasse providência. Durante as investigações policiais, foram identificadas e localizadas supostas vítimas que durante anos teriam sido submetidas a sexo coagidas. E, mesmo depois que um grupo de jovens denunciou o padre, semanas separam o início do grito desesperado de socorro de alguma atitude prática.


Primeiro as crianças procuraram ajuda nas próprias famílias que ficaram atônitas, sem ação. As razões são óbvias - e tristes. Lares que tem filhos com vocação religiosa são compostos, normalmente, por gente de muita fé, para quem a autoridade de um sacerdote é praticamente absoluta - e sua moral, inquestionável. Há vergonha, medo, revolta. Quando os pais tentaram agir, não encontraram respaldo. Ficaram paralisados.


Os meninos tentaram ainda procurar a chefe dos coroinhas, que pouco fez. Foram atrás de outros sacerdotes que, igualmente, lavaram suas mãos. Correram atrás de superiores eclesiásticos que ignoraram o drama. Acabaram no conselho tutelar que, pelo menos, notificou a polícia. Só a partir daí as vítimas começaram a receber algum amparo efetivo. E, a partir da denúncia do jornal Comércio da Franca e da rádio Difusora, resultado de um profundo e detalhado trabalho de jornalismo investigativo, muitos nós da história foram mais rapidamente desatados.


“Quem abusa de criança é um monstro e precisa ser punido”, diz o vereador Bahia. Concordo. Por isso mesmo, seu projeto é inútil. Todos sabem o que tem que ser feito. Falta em muitos a coragem para fazer. Não é um aviso antes de cada filme que vai mudar coisa alguma. No jornal e no rádio, seguiremos apurando, investigando e denunciando, sempre que pertinente, indiferentes às pressões, aos golpes baixos e a quaisquer outras tentativas de intimidação. Esta é nossa missão e como contribuímos para uma sociedade melhor. Deste compromisso, não nos desviaremos um milímetro sequer. Acompanhar de perto o andamento das investigações sobre o padre Dé e oferecer amparo e apoio às famílias das vítimas é uma medida prática que a Câmara ainda não adotou. Fica a sugestão. Garanto que traria efeitos muito mais práticos do que um aviso antes de um filme qualquer.

 

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br