Quando o rapazola chegou à porta da cozinha, coçando os olhos com as costas das mãos, ainda estava escuro.
- A bênção, mãe.
- Deus te abençoa, filho...Teu pai está lá fora amolando a enxada pra você, advertiu a mulher, enquanto remexia a lenha no fogão para avivar o fogo. A luz trêmula da lamparina a querosene, dependurada à soleira da porta, permitia divisar o pai na penumbra do quintal, de cócoras, com um dos joelhos sobre o cabo da enxada, limando a, em movimentos ritmados. Na cozinha recendia o cheiro do café que a mãe acabava de coar.
O rapazinho apressou-se, pedindo a bênção ao pai.
- Pegue a cabaça e vá encher... Vamos tomar café e sair, atalhou o homem, sem se virar ou alterar o ritmo do trabalho.
- Pegue água da mina... E enxágüe a cabaça antes de encher, completou lacônico.
O garoto passou por ele quase correndo e foi cumprir o determinado. A falta de resposta ao pedido de bênção e a objetividade das ordens fizeram-no ver que se atrasara. Correu em direção à nascente que brotava de umas pedras encravadas num barranco a cerca de trinta metros da casa. Enquanto enchia a cabaça passou em revista as conversas que tivera com o pai alguns dias antes. Andava aborrecido com o rumo que as coisas haviam tomado.
Desde que completara sete anos, a mãe vinha insistindo para que ingressasse no seminário. Resquícios da cultura italiana dos pais reclamavam nela um padre na família. Ele mesmo nunca pensara a sério naquilo. Mas, o assunto voltara à baila quando o pai o convidou para irem juntos escolher um guatambu para fazer o cabo de sua enxada. Expusera ao pai o desejo da mãe e as suas dúvidas sobre a questão. O pai, com um ar de desconfiado, apenas ouviu suas ponderações, sem interferir. Era o filho mais novo de uma prole de nove. Em casa, só restava ele e uma irmã mais nova. Todos os demais já haviam casado. Dois dos irmãos moravam na colônia e ainda trabalhavam com o pai, mas já demonstravam intenção de se irem, cuidar da vida em outras paragens. Ouvira da mãe que o pai não se opusera à idéia de estudar num seminário. Apenas considerara que aos doze anos era hora de começar a cuidar da vida, ou no seminário ou na roça. Assim, enquanto não se decidisse, iria com ele para o eito.
Com a cabaça de água nos ombros voltou à casa. O pai já havia terminado de afiar a enxada e estava em pé na cozinha, tomando café. Olhou para o pai, que ostentava fundos vincos no rosto magro. A postura já não era de um homem vigoroso, embora ainda se mostrasse firme no trabalho. Andava pela casa dos cinqüenta e já dava sinais de desânimo, embora dissimulasse. Notava isso na comparação com os irmãos, que se mostravam mais ativos, cheios de planos. O pai dava a impressão de que ansiava por encaminhar os últimos filhos na vida.
Ao terminarem de tomar café reuniram as tralhas para sair.
- Pai, eu não quero ir pro seminário, prefiro...
- Ara, é melhor pensar nisso direito, filho. Você inda nem pegou na enxada...
- Mas, pai eu pensei, eu...
- Pegue a sua enxada e a garrafa de café e vamos indo, rapaz... Eu levo a cabaça. O tom de voz, dessa vez, veio despido da rispidez habitual, e o olhar disfarçava mal um leve matiz de afeto.
- Você vai tocar só meia rua. Eu toco a minha e a outra metade...
E saíram em direção à lavoura.
José Borges da Silva
Procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras