Ele, da janela do andar superior, dirigiu-se ao vizinho:
- A guerra começou? Não sabe?
Desceu para a rua e a pergunta estendeu-se aos demais vizinhos.
Não sabiam e o acompanhavam. E ele, aflito, alcançou a esquina e insistiu com os transeuntes:
- A guerra começou? Não sabem?
Surpresos, curiosos e perplexos, acompanharam-no, que todos se interessavam em saber a resposta.
Quarteirões seguidos andando e perguntando. O fluxo de acompanhantes transformava-se em procissão.
- Estourou a guerra?
O padre benzeu-se, entrou na igreja e trancou-a. Os meninos entreolhavam-se:
- Que guerra?
A todos, crianças, adultos e idosos, a pergunta era sempre aflitiva:
- Começou a guerra? Estourou ou não?
Motoristas e passageiros desciam dos carros e ônibus e silenciavam com a pergunta. Famílias saíam às ruas, trancavam as casas, cochichavam entre si, interessadas na resposta.
A moça magra surgiu à janela do edifício e, como se rezasse, confirmou com a cabeça.
Ele parou, pôs as mãos na boca como concha:
- Então é verdade?! Agora?! Está noticiando nas rádios, televisões e internet?! Obrigado!
A multidão estacou silenciosa. Ele subiu na mureta de um jardim, abriu os braços:
- Pronto! Começou!
Suspirou, aliviado:
- Agora podemos esperar que algum dia venha a paz.
Todos, calados, retornaram para as suas vidas.
Caio Porfirio
Escritor, crítico literário e secretário administrativo da União Brasileira de Escritores