‘Pensar só em si e no presente é uma fonte de erro em política’
Jean de La Bruyère, ensaísta francês
Saíram os números da primeira rodada da série de pesquisas eleitorais encomendadas pelo GCN Comunicação, que edita o Comércio, ao instituto Datalink. Muito se especulou ao longo dos últimos dias sobre o resultado. O relatório integral era conhecido até sexta-feira por pouquíssimas pessoas aqui do Comércio/Difusora. Ainda assim, o que não faltou foi assessor político - e candidato - chutando número, posição e projetando voto sobre aquilo que ignorava. Nada diferente do que acontece, quase sempre, em período eleitoral.
O resultado publicado hoje traduz em números o que até agora era suposição e acende de vez no círculo íntimo dos principais pré-candidatos o sinal de alerta. Há razões de sobra para a preocupação. O cenário identificado pela pesquisa Datalink, extretamente embolado e indefinido, pode levar Franca a perder representatividade política depois de quatro anos de razoável fortalecimento. A se manter o quadro atual até o dia da eleição, será um grande retrocesso. Mas o risco é real.
A explicação é simples. Diferente do que tentam demonstrar alguns candidatos - especialmente os nanicos, que detém percentuais de votos que oscilam entre 0,7% e 4% - Franca não tem potencial para fazer mais do que três deputados. Um federal e dois estaduais é o limite de cadeiras que a cidade pode alcançar, observada a lógica da disputa. Mais do que isso, só o acaso, um lance de sorte ou uma sucessão de hipóteses improváveis permitiriam a Franca e região ter um segundo deputado federal ou um terceiro estadual. Não é impossível, mas é bem pouco provável.
A análise atenta e criteriosa da lista dos deputados eleitos em 2006 e o cruzamento com os dados de suas bases eleitorais constata o óbvio que o delírio de alguns prefere ignorar. Três deputados é um bom resultado para Franca, A cidade, com seus 330.938 habitantes e 218 mil eleitores, tem hoje representação mais expressiva que boa parte das cidades paulistas de porte semelhante.
As comparações facilitam a compreensão. Bauru, cidade um pouco maior do que Franca, tem uma população estimada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 359 mil habitantes. São quase 250 mil votos. E, mesmo assim, Bauru tem apenas dois deputados estaduais, Pedro Tobias (PSDB) e João Barbosa (DEM). Nenhum federal. Mogi das Cruzes, ainda maior, com seus 375 mil habitantes, tem apenas um estadual, Luis Carlos Gondim (PPS). Assim como Bauru, não tem federal. Piracicaba, com 368 mil habitantes, tem um estadual, Roberto Morais (PPS), e um federal, Mendes Thame (PSDB). A situação é idêntica em Rio Preto que, apesar de seus 419 mil habitantes, tem apenas um estadual, Vaz de Lima (PSDB), e um federal, Vadáo Gomes (PP), para defender seus interesses.
Cidades capazes de eleger pelo menos dois deputados federais e três estaduais são sedes de regiões muito mais populosas, com número de eleitores praticamente duas vezes maior que o de Franca. É o caso de Ribeirão Preto que, com 563 mil habitantes, mais de 350 mil eleitores e sede de uma região que congrega cidades expressivas, tem dois estaduais e dois federais. Baleia Rossi (PSDB) e Rafael Silva (PDT) a representam na Assembleia Legislativa. Duarte Nogueira (PSDB) e Fernando Chiarelli (PDT), na Câmara Federal. Há, ainda, Antônio Palocci (PT), mas o caso do ex-prefeito de Ribeirão é atípico. Figura estelar do universo petista, Palocci é nome de expressão nacional. Foi ministro de Estado e sua votação não se restringe mais a uma região específica.
Campinas é outra cidade com representação maior que Franca, mas a comparação, de tão desproporcional, é até injusta. A cidade, com porte de capital, tem 1,1 milhão de habitantes e mais de 750 mil eleitores. Mesmo com este poderio, tem uma bancada formada por apenas quatro deputados estaduais - Celia Leão (PSDB), Feliciano Filho (PV), Jonas Donizete (PSB) e David Zaia (PPS) - e dois federais - Guilherme Campos (DEM) e Carlos Sampaio (PSDB). É o dobro do número de deputados de Franca, uma diferença proporcionalmente pequena se considerado que tem quase quatro vezes mais eleitores.
Marco Aurélio Ubiali (PSB), em Brasília, e Gilson de Souza (DEM) e Roberto Engler (PSDB), em São Paulo, defendem os interesses de Franca no Legislativo e junto ao governo federal e estadual, respectivamente. Há mais gente com vontade de assumir o papel. Na disputa por uma vaga na Câmara Federal, a vereadora Graciela Ambrosio (PP) e o advogado Fábio Liporoni (PMDB) surgem como nomes capazes de dividir o eleitorado com Ubiali. Há outros que sonham com a vaga mas, por enquanto, nenhum deles demonstra quaisquer real. Na luta por um lugar na Assembleia Legislativa, o médico Joaquim Ribeiro (PSB) e o ex-vereador Gilson Pelizaro (PT) demonstram capacidade de beliscar uma fatia importante do eleitorado.
Virão outras rodadas de pesquisa, o cenário certamente vai se alterar após as convenções partidárias, mas quem decidirá - de forma soberana e incontestável - o nome dos que vão representar a cidade é o eleitor. Sair todo mundo na disputa pelos votos é um direito dos candidatos. Só não sei se é o mais inteligente a fazer. Afinal, pedir votos é relativamente simples. Difícil vai ser encontrar alguém para assumir a fatura se, por conta da divisão do eleitorado, a cidade perder representação política e deixar de ter uma vaga em Brasília e duas em São Paulo. O tempo corre. E, neste caso, contra os que sonham com uma vitória, a cadia dia, mais difícil.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br