A tenente do Corpo de Bombeiros, Sandra Elaine de Andrade, 26, causou sensação no último dia 17, quando assumiu seu posto na unidade de Franca. A oficial chama a atenção tanto pela simpatia quanto por ser a primeira mulher na corporação em toda a região de Ribeirão Preto. Diante da repercussão, a tenente se mostrou tímida, mas disposta a falar de si. “Sou calma, libriana e de um perfeccionismo tipicamente feminino”, disse ela. Bonita? “Isso é com quem olha”, respondeu de pronto.
Com 1,61m de altura, Sandra passou raspando do limite mínimo dos Bombeiros, que é de 1,60m, mas não vê problemas nisso. “Não me incomodo com a minha altura porque há ocorrências que os Bombeiros atendem em que se precisa de gente pequena”, explicou. E quanto ao gênio? Afinal, dizem que quanto menor é a estatura, mais esquentado é o temperamento. “Pareço ser meio quieta, fechada e sinto que algumas pessoas têm dificuldade para se aproximar. Mas tem horas que eu acho melhor falar do que levar para casa. ”.
Tenente Sandra é paulistana, mas se mudou para Barretos com apenas seis anos de idade. Desde pequena sonhava em seguir os passos do pai - bombeiro aposentado, atuou por mais de 20 anos em Barretos. Aos 18, ela entrou para a Academia de Polícia Militar do Barro Branco - estabelecimento de ensino superior, de regime especial, da PM do Estado de São Paulo. Formou-se ao completar 22 anos e fez parte do policiamento em Santo André, na Grande São Paulo, durante dois anos. “Acho que são profissionais de grande valor, mas sentia que ainda não era o que eu queria. Então, fiz concurso para o CFO (Curso de Formação de Oficiais) dos Bombeiros”, lembrou.
Fala com paixão e disposição dos poucos meses de experiência após a academia. Logo nos primeiros meses após se formar, a tenente comandou uma ação de salvamento em um cenário catastrófico. Em janeiro deste ano, quatro pessoas de uma mesma família e mais três vizinhos foram soterrados por um deslizamento de terra no Grajaú, Zona Sul da capital paulista. Três pessoas morreram. Duas crianças foram salvas. “Só não morreram porque Deus não quis”, disse ela.
Durante toda a entrevista ao GCN Comunicação, a tenente se mostrou bem humorada e disposta a falar sobre qualquer assunto. Até mesmo sobre sua vida pessoal, para deleite dos francanos mais curiosos. Mudou-se para um apartamento em Franca, que divide com duas universitárias. E afirma que veio para ficar, criar raízes. Malha todas as manhãs, é solteira e está sem namorado. “Mas não coloca isso no jornal para não pensarem que eu estou encalhada”, brincou ela. Tarde demais.
Comércio da Franca - Por que você escolheu fazer parte do Corpo de Bombeiros?
Tenente Sandra - Foi por causa do meu pai. Ele foi bombeiro a vida toda e hoje está aposentado. Trabalhou em Barretos e Santo André. Então, cresci dentro de quartéis. Tinha o dia da criança e eu adorava ver as viaturas. Minhas primeiras lembranças são de festinhas que reuniam as famílias dos bombeiros. Tenho dois irmãos e um deles também é bombeiro. O outro estuda direito.
Comércio - E sua mãe?
Sandra - Minha mãe é dona de casa. Sempre esteve presente, acompanhou meu pai e a profissão. Acho que tem orgulho da gente. Não lembro de meu pai ter passado por uma situação perigosa ou pelo menos de ter levado isso para casa. Portanto, ela não tem do que ter medo.
Comércio - O que eles falaram quando você disse que queria ser bombeiro?
Sandra - Meu pai me lembrou das dificuldades, não só físicas - porque é um serviço que pode exigir muito -, mas ele dizia que eu tinha que me especializar. A gente tem de saber o que fazer, estudar, treinar. Não dá para chegar na hora e improvisar.
Comércio - Atualmente você cuida da parte administrativa e de prevenção do Corpo de Bombeiros em Franca. Depois de formada você sempre exerceu essas funções?
Sandra - Mesmo o oficial dos Bombeiros da parte administrativa não se desliga do operacional. Tenho uma escala mensal na qual tiro alguns dias em nossa sede, que é Ribeirão Preto, e fico exclusivamente na parte operacional. Como oficial de área, fico em uma viatura específica, de apoio, para gerenciar ocorrências mais graves. Desde que vim para cá, fiz esse serviço três vezes. Durante o curso e ao seu final, a gente também fica 24 horas no quartel como operacional. Fiz isso em novembro, dezembro e janeiro, época em que as chuvas mais castigaram São Paulo.
Comércio - Nessa época houve soterramentos e enchentes. Você trabalhou nessas ocorrências?
Sandra - A mais traumática foi o soterramento de sete pessoas no Grajaú, Zona Sul de São Paulo. Três delas morreram. Dez casas da região foram interditadas pela Defesa Civil. Fizemos o salvamento de duas crianças que estavam... (pausa) Só não morreram porque Deus não quis.
Comércio - O que você se lembra daquele dia?
Sandra - Tinha acabado de me formar... Fomos chamados às 3h30 e fiquei até as 17 horas, para achar os corpos. Quando chegamos lá, havia apenas um monte de terra. Duas casas tinham sido cobertas. Duas pessoas que estavam na parte de cima de uma das casas conseguiram sair e foram socorridas por vizinhos, mas tínhamos a notícia de que havia uma família lá dentro. Três crianças e os pais. Começamos a ouvir uma voz de criança. Só que estava escuro, chovendo e era apenas um monte de terra.
Por aproximação, fomos abrindo buracos. Tudo com muito cuidado porque tudo ali estava instável. Havia a esperança de encontrar alguém com vida, e tínhamos de fazer o salvamento.
Comércio - Mas, não foram somente as condições da tragédia que foram marcantes...
Sandra - Não, marcou mais porque foi feito o salvamento de duas crianças. Uma delas estava perto dos pais que foram encontrados mortos. Demorou mais de uma hora para tirar essa criança. O bombeiro foi cavando com a mão por uns três metros. Não havia condição ou espaço para pegar um equipamento para ajudar. A criança ficou protegida em um vão no deslize da terra e foi resgatada com vida, sem nenhuma lesão.
Depois surgiu um outro som que vinha de uma laje que também tinha sido atingida. Estava escuro e ainda chovia. O bombeiro entrou e eu fiquei acompanhando de perto. Ele tocou em uma perna e, conversando com a menina, ela falou que não era dela. Assim, a gente descobriu que duas meninas de aproximadamente 8 anos estavam juntas lá na hora do deslizamento. Uma infelizmente morreu. A outra foi resgatada com vida.
Comércio - Como é o contato com os envolvidos - vítimas e familiares - em uma ocorrência?
Sandra - O envolvimento existe mais no momento da ocorrência. E se é bem sucedida, é muito gratificante. Do contrário, é muito triste. Foi o que aconteceu com o Capitão Sérgio Ricardo dos Santos (morto aos 38 anos, no último dia 29, depois de capotar a caminhonete que dirigia em uma estrada de terra em Jaboticabal. Ele foi comandante da 6ª Companhia da PM de Franca até o dia 5 de janeiro deste ano). Eu estava em serviço em Ribeirão. Ele foi socorrido pelo resgate, mas o médico não teve muito o que fazer. Fui até lá auxiliar na parte burocrática e dar assistência à família. Era uma pessoa que viveu como bombeiro, se especializou. Amava aquilo que fazia... A gente é uma irmandade.
Comércio - Por que essa união entre vocês é tão forte?
Sandra - O princípio dos Bombeiros é a união. Somos um pelo outro... Na maioria das vezes é um dependendo da segurança do outro, confiança na experiência do outro.
Comércio - Foi você que escolheu vir para Franca?
Sandra - Depois que me formei em novembro no curso de especialização, pedi para vir para a região de Ribeirão. Consegui na segunda tentativa. Não sabia exatamente onde ia trabalhar. Poderia ser qualquer cidade da região. O comandante fez o planejamento e colocou para mim que Franca seria um lugar bom. Estou feliz. É um serviço que é diferente. Fico mais na parte de prevenção, analisando projetos, fazendo vistoria.
Comércio - Você já conhecia a cidade?
Sandra - Não. Tinha vindo, mas de passagem. Quando cheguei, vim para ficar. O que eu sei é que Franca é a capital do calçado, tem muitas indústrias e é uma cidade universitária. Quando cheguei, o Capitão Alexandre me informou que aqui a atenção maior é na época das chuvas por causa das enchentes. Esta época agora, as pessoas colocam muito fogo em mato para limpar o terreno. É um período em que temos um programa específico para isso: a operação mata-fogo. Não é o correto, não é para ser feito de forma nenhuma. Há outros meios: roça o terreno e usa produtos químicos. Mas, a gente vai lá e apaga.
Comércio - Além das enchentes e do fogo em mato, também há muitos acidentes de trânsito em Franca. Como vê esse aspecto?
Sandra - É uma área grande com vicinais e rodovias. A unidade de resgate tem papel considerável porque, realmente, atende inúmeras ocorrências.
Comércio - Você gosta mais de trabalhar na rua, no operacional?
Sandra - É a nossa atividade fim. A gente está ali para salvar. A gente vai com a intenção de encontrar alguém que possa ser salvo. É apaixonante. Quando tiro serviço 24 horas, posso estar cansada, ter ido para várias ocorrências, mas vou com disposição porque sei que vou ajudar alguém. É muito gratificante.
Comércio - Como você se sente sendo a primeira mulher bombeira em toda a região de Ribeirão Preto?
Sandra - Eu não via muita diferença, mas eu noto que as pessoas acham que é uma coisa muito diferente. Eu não via isso, mas depois que eu cheguei, as pessoas começaram a comentar como uma novidade. Mesmo em Ribeirão Preto. Na comunidade, quem vê fala: “Mas, pode?”. Menina que vê na rua e fala: “Olha, uma bombeira!”.
Comércio - Mas há a diferença física que é inegável...
Sandra - Tem coisas que não tem como falar que eu vou dar conta de fazer, porque não vou. Carregar equipamentos de mais de 20 quilos, por exemplo. Mas, também não vou dizer, só porque sou mulher, que não vou fazer tal serviço. Quando eu entrei tinha 51 quilos e percebi, nas aulas e instruções, que para utilizar alguns equipamentos teria que fazer um fortalecimento. Então, fui fazer musculação, me preparar para ganhar um pouco de massa muscular para não sentir tanto.
Comércio - Mas há mulheres na linha de frente dos bombeiros?
Sandra - Tem mulheres que dão show. Quando fui estagiar em São Paulo, tinha lugares em que eles falavam que “trabalhar com essa ou aquela mulher é melhor do que trabalhar com muito homem por aí”.
Comércio - Você se sente muito cobrada?
Sandra - Isso não é falado, mas eu percebo. Se a gente está em um meio masculino e há alguma coisa que exige força, a primeira coisa que o homem faz é olhar. A gente sabe o que ele está pensando: “Será que ela vai conseguir fazer?”. Você está ali e preparada, você faz. No curso era assim. Eu também opero equipamentos, mas minha posição é de gerenciamento.
Comércio - Você ainda pode ser remanejada?
Sandra - Posso ser mandada para qualquer lugar do Estado, mas se eu puder escolher, pretendo ficar. Gostei muito daqui.
Comércio - Você já teve problema com os homens subordinados a você?
Sandra - Com a disciplina militar, não tem isso. Não é preciso nem orientar. Lógico que sempre tem pessoa com preconceito. É visível. Mas, tem que me aceitar. E cumprindo o serviço dela, comigo não vai ter problema.
Comércio - Sua profissão dificulta seus relacionamentos?
Sandra - Às vezes, parece que as pessoas criam uma barreira. Já namorei, mas terminei e fui fazer o curso. Como ficava um tempo em São Paulo, Araçatuba e Barretos, viajando nos finais de semana, acabei não criando raízes. Só que chega uma hora em que você quer ter uma coisa mais séria. Alguém que seja companheiro. Os horários de trabalho também são empecilhos. É difícil para uma pessoa entender que eu vou estar de serviço das 7h30 do sábado até as 7h30 do domingo, 24 horas, em meio a um monte de homens.
Comércio - Você sabe que a notícia de sua chegada foi muito acessada no site do GCN?
Sandra - Me falaram... Fiquei feliz. Vejo como uma coisa positiva (risos). Acho que ficaram curiosos.