Depois do julgamento de Eichmann, em 1961, quando Hannah Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, conferindo-lhe lucidez e profundidade através de leitura até então rasa, desvendar o holocausto e punir os nazistas tornou-se um processo em constante ampliação e aprofundamento, e não apenas na Alemanha.
No âmbito da literatura, a contribuição para uma análise deste episódio negro da história da humanidade tem sido grande. Dois importantes lançamentos no Brasil chamam a atenção pelo esforço da pesquisa e pela qualidade da ficção. O primeiro é As Judias no Campo de Concentração de Ravensbruck, da historiadora Rochelle Saidel, tradução de Antônio da Pádua Danesi, editora Edusp. Ravensbruck destinava-se exclusivamente a mulheres e nele morreu Olga Benário, companheira de Luís Carlos Prestes, deportada grávida para a Alemanha por Getúlio Vargas em 1936.
Durante 25 anos Rochelle coletou documentos, ouviu sobreviventes, pesquisou bibliotecas e voltou ao campo várias vezes para entender porque as judias, 20% da população do campo, foram esquecidas nos diversos relatos que só destacaram as comunistas russas e alemãs.
A outra obra é de ficção, O Violino de Auschwitz, traduzido para o português por Ronald Polito, escrito pela catalã Maria Àngels Anglada. O resumo da história faz-se com poucas frases. Um artesão de nome Daniel, preso num campo de extermínio, é convocado pelo comandante, homem brutal que gosta de música clássica, a construir um violino que tenha som perfeito. O tempo de vida de Daniel está estreitamente relacionado ao cumprimento de sua tarefa. Executar a ordem torna-se motivo de esperança e martírio. É esta matéria, o tempo de Daniel enquanto trabalha a madeira, a coluna que sustenta a saga. Um violinista que conviveu com ele e também foi vítima das atrocidades nazistas, conseguindo salvar-se quase por milagre, ou graças à execução da peça La Follia, de Arcangelo Corelli, é quem narra a história em terceira pessoa, muitos anos depois de acontecida. Durante as 127 páginas é mantido o suspense sobre o destino do luthier, revelado apenas nas últimas linhas.
A construção da estrutura para mostrar a história tem na transcrição documental momentos de impacto. Encontrados em diversos campos de concentração após a libertação e guardados hoje em museus e bibliotecas, os documentos firmados são a prova mais irrefutável a oferecer àqueles que de vez em quando ousam contestar a existência do Holocausto. O primeiro é datado de dezembro de 1941. O assunto é especificado na segunda linha: “uso de arma de fogo”. Logo abaixo se lê:
“No dia primeiro de dezembro de 1941, das 14h às 16h, estava lotado no posto 4, na Hohensteinerstrasse. Às 15h vi uma judia subir a cerca do gueto, colocar a cabeça para fora e tentar roubar cenouras de um carro que passava pelo local. Fiz uso de minha arma de fogo. A judia foi baleada mortalmente com dois tiros. Tipo da arma: carabina 98. Munição empregada: 2 cartuchos. Assinado: Naumann, Guarda de reserva, Primeira companhia B1- Batalhão Gueto.”
Esta rotina dos campos, marcadas pela espantosa indiferença pela vida humana, pelo outro que era prisioneiro e especialmente judeu, vai sendo desvelada a cada capítulo por estes documentos tenebrosos e pelo relato que cresce ao redor do personagem Daniel e de outros prisioneiros. Fome, sede, frio, castigos, privações, torturas, humilhações, crueldade vão recrudecendo numa escalada onde a barbárie atinge níveis inimagináveis.
Neste mundo onde os nazistas investem a todo instante na desumanização dos confinados, um artista encontra forças para sobreviver construindo um instrumento musical e outro ensaio mentalmente para tocá-lo. A arte pode ser uma forma e um caminho de salvação. É a mensagem subliminar desta escritora que tem um estilo claro, enxuto, fático, mas nunca desesperançoso. Em meio à desolação e à morte, Anglada busca intercalar entre os capítulos e os documentos sinistros, o salmo106 e os poetas Agustí Bartra, Iannis Ritses, Josep Carner e Virgílio. Da romancista Emily Dickson ela escolhe este trecho: “O sofrimento se assemelha a um grande espaço: lembrar não poderia como começa, nem se tinha havido um só dia sem ele.” Perfeita tradução para a dor que acompanhou milhares de prisioneiros anulados na sua identidade, aviltados na sua dignidade. Porque não podemos nos permitir esquecer, os escritores ajudam relembrando.
Serviço
Título: O Violino de Auschwitz
Autora: Maria Àngels Anglada
Número de páginas: 127
Editora Globo
Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço