Com quase dez mil empregos criados na cidade em quatro meses, o ano de 2010 em Franca tem sido de expansão para os mais variados setores da economia. De bancas de pesponto a salões de cabeleireiro, o cenário é promissor. A maioria atesta o aquecimento nos negócios ocorrido devido à retomada da indústria calçadista, que, apesar da diversidade industrial francana, ainda é a mola mestra da economia local. O setor industrial emprega 28 mil pessoas, a ampla maioria na indústria calçadista, e vem recuperando as vagas perdidas entre 2008 e 2009, durante a crise financeira mundial. A fábrica de calçados Mariner, que direciona para o mercado interno 70% de sua produção, é exemplo dessa retomada. Em janeiro, produzia 3,5 mil pares, atingiu 5,6 mil e hoje fabrica 9,5 mil pares de sapatos masculinos por dia.
Na ponta da produção do segmento calçadista estão as bancas de pesponto, as primeiras a perceber a mudança que o aquecimento de vendas de calçados proporciona. O volume de trabalho em todas as consultadas pela reportagem está em alta. Com o aumento da procura de fábricas que precisam terceirizar parte da produção, banqueiros chegam a dispensar pedidos. Para dar conta da demanda, as bancas estão contratando mais funcionários ou ampliando a jornada de trabalho. Pespontadores têm feito horas extras e trabalhado aos sábados.
Proprietário de uma banca de pesponto no Jardim Luiza I, Devair Esteves contratou mais funcionários em março. Passou de nove para 13 empregados e aumentou a produção diária de 120 pares de sapatos masculinos para 200. “O mercado interno está muito aquecido. O ano realmente está excelente para quem trabalha com calçados”, disse. Em algumas semanas, Devair amplia o expediente na banca. Quando convocados, os funcionários trabalham aos sábados, até 11 horas. Ainda assim não é suficiente. Devair recusou encomendas de três empresas nos últimos 15 dias.
O economista Daltro Oliveira de Carvalho explica que os reflexos das contratações na indústria geram um efeito em cadeia. “Havendo um aquecimento na economia, o cidadão passa a ter um nível melhor de salário, aumenta o consumo e isso resulta num crescimento econômico dos outros setores”, disse. Para o especialista, outro fator importante ajudou a aquecer a economia. São os incentivos do governo para driblar a crise. “A redução do IPI de carros e eletrodomésticos, por exemplo, fez com que as vendas desses segmentos estourassem”, disse Daltro. No estacionamento Karlos Automóveis, a queda na taxa de juros para financiamento de seminovos impulsionou as vendas. Desde o ano passado, o proprietário Karlos Oliveira contabiliza crescimento de 50% a 60% nos negócios.
ENGRENAGEM
Para o empresário Jaime Borges, da Stefanello Calçados, o bom momento fortaleceu a ideia de incrementar o setor de pesponto dentro da própria fábrica e também possibilitou que sua produção diária aumentasse 200 pares. “Neste ano passamos a produzir 800 pares de sapatos femininos por dia, especialmente botas, mas não aumentamos como deveríamos, que era atingir de 900 a mil pares porque não tenho mão-de-obra nem as máquinas. O pesponto está travando a indústria calçadista. É o nosso gargalo”.
Como numa engrenagem, as fabricantes de equipamentos também não têm do que reclamar. A Ivomaq, por exemplo, conseguia fazer entrega de produtos com prazo de sete a no máximo 30 dias. Agora, os pedidos podem demorar até quatro meses para ser entregues em razão da grande procura.
O presidente do Sindifranca (Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca), José Carlos Brigagão, acredita que esse é o momento de recuperação das perdas sofridas no último trimestre de 2008 com a crise mundial. “A nossa meta é voltar aos números de funcionários de setembro de 2008 quando tínhamos 28.511 funcionários. O mês de abril terminou com 25.493. A partir de julho poderemos considerar que a indústria francana iniciou seu crescimento”.
O Secretário Municipal de Finanças, Sebastião Ananias, acredita que os reflexos na arrecadação de impostos serão sentidos futuramente. “É claro que a reposição salarial incentiva o pagamento do IPTU, ISS e outros tributos com pontualidade e essa é nossa expectativa”.
Colaboraram Marco Felippe, Tuane Bonfim e Swaida Martins