Desde menino, Paulo Francisco Rodrigues Puccinelli, 50, gosta de apreciar a natureza. No momento de escolher a profissão, optou por uma pouco conhecida. É engenheiro de minas, formado pela Universidade Federal de Ouro Preto (MG). Em Franca, conhece apenas um profissional da área e que está aposentado.
Depois de trabalhar em minas de ouro no Norte do País, Paulo Puccinelli resolveu ser autônomo. É contratado para fazer as chamadas sondagens de solo, que são estudos, a partir de coleta de rochas e outros materiais do solo, para conhecer as camadas do terreno onde se irá construir. É durante essas coletas em terrenos da região que Paulo Puccinelli pode comprovar o que a história conta: Franca já foi um deserto, como o do Saara. Por isso o solo francano é tão frágil. As dunas de areia acabaram transformadas após uma erupção que depositou lavas sobre elas e provocou a formação de rochas - as que encontramos nas pedreiras existentes em cidades próximas nada mais são que o magma que sofreu erupção há milhões de anos e se solidificou.
O francano fala com entusiasmo das descobertas. Em seu escritório, tem dezenas de livros, fotos de áreas de erosão, mapas e exemplares de rochas. Amostras retiradas da curva da morte, na Rodovia Cândido Portinari, que passa por obras para construção de um viaduto, são armazenadas por ele. A coleta ajudará a conhecer o solo e encontrar os melhores pontos para ancorar o viaduto.
Na cidade, o levantamento mais recente apresentado pela Secretaria Municipal de Urbanismo aponta a existência de 28 voçorocas. O engenheiro de minas explica que são resultado da fragilidade do solo francano. Em algumas partes da cidade, o solo é arenoso, pouco resistente, por isso as erosões são comuns. Segundo Paulo Puccinelli, a instabilidade é tanta que quando em contato com a água é como se o solo derretesse. O solo arenoso é predominante no município, mas alguns pontos são formados por terrenos areno-argilosos. Neste caso, contém uma parte de argila, que costuma absorver muita água e se transforma numa gelatina.
Conhecer as características do solo onde se irá construir é essencial para evitar transtornos como os vividos no Jardim Dermínio. A instabilidade do solo provocou uma série de problemas aos moradores do bairro e ao poder público. A Prefeitura foi obrigada a desapropriar 23 casas que estavam com a estrutura abalada e sob ameaça de desabarem. Paulo Puccinelli disse que se a inspeção do terreno tivesse sido feita anos atrás, provavelmente o loteamento não teria sido autorizado. “A área precisaria ser isolada, não há como usá-la”.
Em Franca, somente a partir de 2005 a Prefeitura passou a exigir um estudo que permite conhecer em detalhes o subsolo antes de autorizar a implantação de loteamentos. Paulo Puccinelli é contratado para realizar esse tipo de inspeção.
Como no Jardim Dermínio, em pelo menos outros dois bairros esse tipo de diagnóstico evitaria danos. No Recreio Campo Belo, apontaria a necessidade da execução de obras para prevenir erosões. Em fevereiro de 2004, o bairro sofreu uma tragédia ambiental. Após uma forte chuva, uma imensa cratera se formou no bairro. Segundo o engenheiro, a instalação de drenos poderia ter evitado que o lençol freático atingisse um nível muito alto e comprometesse a área. Outro local seria a Vila Tótoli. Somente depois das casas apresentarem rachaduras, os moradores contrataram uma empresa para inspecionar o solo e descobriram que os imóveis foram erguidos sobre um antigo aterro de lixo.
Comércio da Franca - Os problemas no solo de Franca são históricos. Sendo engenheiro de minas, como o senhor avalia essa situação?
Paulo Puccinelli - O solo de Franca é predominantemente arenoso e é extremamente frágil. Em alguns pontos ele é areno-argiloso, ou seja, possui um tipo de argila que gosta muito de água e que, quando absorve água, perde a firmeza e fica como se fosse uma gelatina.
Comércio - Como se formou esse solo?
Paulo - Há 200 milhões de anos mais ou menos existiu um deserto aqui na região, como o do Saara. Uma grande quantidade de areia, que não se sabe bem a fonte, foi trazida pelo vento e formou grandes dunas aqui. Quando elas já estavam formadas, há 130 milhões de anos, ocorreu um evento magmático, como está acontecendo no vulcão em erupção na Islândia. Com isso, as lavas vulcânicas vindas de camadas mais profundas da terra cobriram o deserto. Em alguns momentos, o magma conseguiu atravessar as dunas de areia e se depositar em cima delas, mas quando não tinha força para atravessar até a superfície, acabava depositado no meio das areias, se espalhando lateralmente. Como era muito quente, resfriou ao se aproximar da superfície e se solidificou, formando o basalto, uma rocha escura, que encontramos hoje nas pedreiras existentes na região. É a rocha que usamos para fazer pedra brita. Depois, novas camadas de arenito foram depositadas na região, mas diferentes do deserto. Foram trazidos pelas águas e tinham uma parte de argila, por isso o solo onde construímos nossas casas tem parte arenosa e parte com argila. É o que acontece no Jardim Dermínio e no Campo Belo.
Comércio - Por que se formam as voçorocas?
Paulo - Esses problemas de voçoroca acontecem em solos tipicamente arenosos, sem coesão e porosos. Caiu água nele, ele derrete. Se tivéssemos somente basalto, que é a rocha resistente, não iria erodir.
Comércio - É possível evitar erosões? Desde 2005 para aprovação de um loteamento a Prefeitura exige um estudo detalhado do solo. Isso ajuda a evitar transtornos?
Paulo - Os laudos que fazemos do solo permitem conhecer a área em que você está entrando, saber se há restrições. A primeira coisa feita neste estudo é um diagnóstico da área, uma fotografia dela, do solo, subsolo e água para tentar prever como o meio físico vai reagir com a implantação do empreendimento e que cuidados devem ser tomados, quais são as áreas mais vulneráveis. Muito possivelmente se esse estudo fosse feito anos atrás evitaria problemas de urbanização em muitas áreas.
Comércio - Quais seriam essas áreas?
Paulo - Como disse, temos dois problemas grandes. Os solos arenosos, que são inconsistentes, sem firmeza, com baixa resistência e que são passíveis de erosões de grande porte, as chamadas voçorocas. Quando esse solo está marginal aos córregos, ele apresenta movimento coletivo, de grandes massas de solo que escorregam. E temos solos areno-argilosos, que têm areia e argila e essa porção de argila é altamente hidrófila, gosta muito de água. Então ela absorve muita água e expande. Ao expandir, o solo perde toda resistência e começa a escoar, vira uma gelatina e leva o que tiver. É o caso do Dermínio e do Recreio Campo Belo, que sofreram deslocamento de massas inteiras do solo. No Dermínio, acho que é um extrato desse solo areno-argiloso porque quando o solo está hidratado, quando o lençol sobe, ele se movimenta. Por causa da impermeabilização do bairro, a erosão sulcou o córrego e fez o solo perder a firmeza. Essa é minha interpretação para aquela história, para as casas terem rachaduras e precisarem ser demolidas. Ali não conseguiram ancorar aquelas casas num solo resistente. Tudo que tiver em cima do solo vai se deslocando devagar. É um movimento lento, menos de um centímetro por ano, mas ele não para.
Comércio - Se o estudo do solo fosse feito antes da aprovação do loteamento, detectaria esses riscos?
Paulo - Detectaria e poderia prevenir, inibindo o uso da área ou indicando o uso para outros empreendimentos.
Comércio - Que tipo de empreendimento poderia receber?
Paulo - Neste caso precisaria estudar. O problema é que na cidade temos poucos estudos. O IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) já fez análises na cidade, mas foi um estudo superficial, por falta de recursos. Precisa de fato diagnosticar o problema, para não fazermos apenas suposições. Mas no caso do Dermínio, se foi exatamente isso que ocorreu, a área tem que ser isolada, não tem como usá-la.
Comércio - Por que o estudo do solo não era feito anos atrás?
Paulo - Até onde sei, esse estudo geológico não era feito em lugar nenhum. Com o incremento da urbanização, os problemas começaram a se intensificar muito, então surgiu a necessidade de fazer os levantamentos. É lamentável não terem sido feitos antes.
Comércio - Qual outro bairro apresenta problemas por falta do estudo?
Paulo - De histórico, temos o Recreio Campo Belo, que é uma situação muito complexa. Foi também um movimento coletivo do solo, mas foi uma corrida de terra, possivelmente com uma velocidade muito alta. Houve saturação do solo, ou seja, excesso de água nele, que provocou perda de coesão. O solo é argiloso, as águas da chuva e do lençol entram na argila, que é formada por lâminas, e a deixam inchada. Foi assustador. Um estudo poderia prever drenos para nunca deixar o lençol subir até certo nível. Porque se atinge determinado nível, faz o solo perder a coesão e o que tem em cima vai embora. No Morro do Bumba, no Rio de Janeiro, aquilo não é solo, é aterro sanitário. A chuva saturou tudo porque existia uma certa coesão e ela desapareceu, além da própria água que aumentou o peso do solo e o fez escoar. Neste caso, o poder público sabia daquilo, foi um absurdo, uma negligência.
Comércio - Em Franca, na Vila Tótoli, casas foram construídas sobre um antigo aterro de lixo. Existe como reparar o problema?
Paulo - Sabemos que no bairro existia uma voçoroca, como tantas em Franca, e que foi aterrada com resíduos diversos. Naquela época, a população do entorno pedia para aterrar a voçoroca. A população e o poder público aprovavam o depósito dos resíduos porque queriam estabilizar a erosão. Estranhamente foi permitido construir ali. Meu olhar é técnico, juridicamente não sei como deve ser tratado esse caso, mas, tecnicamente, a casa deve ser ancorada num solo estável. É preciso fazer sondagem do terreno, estabelecer onde está a parte com solo resistente para ancorar a casa, com colocação de vigas. Se fizer isso, a casa continuará fixa, como uma palafita.
Comércio - Em janeiro deste ano, casas do Jardim Palmeiras foram inundadas após transbordamento de um córrego que corta o bairro. Como evitar essas ocorrências?
Paulo - Não conheço esse bairro. Mas construímos muito perto das drenagens. Como nos Estados Unidos e alguns países, existe um especialista querendo implantar uma lei no Brasil que estabelece uma curva de cem anos e estuda até onde chega a enchente de cem anos. No ponto que a enchente atingir, fica proibido construir. No Palmeiras, se o afluente passa do lado das casas, dá impressão que nós chegamos com a casa onde não deveríamos. Precisa avaliar como é o solo lá. Todo solo com água perde resistência. Existe na cidade um problema chamado colapso que é justamente quando o solo é saturado, perde coesão e resistência. Se subiu o nível de água no córrego, sobe o lençol junto. Precisava sondar para entender o que aconteceu. Para conhecer uma área tem que ir lá.
Comércio - Na curva da morte, entre Pedregulho e Rifaina, foram coletadas amostras do solo. Que trabalhos foram feitos no local, que está em obras para receber um viaduto?
Paulo - Está sendo feito um desvio na curva da morte, então foram feitas várias sondagens no local para investigarmos o subsolo. O engenheiro civil é quem pede essa sondagem, para conhecer as camadas do solo e saber o que vai encontrar no subsolo para ancorar os pilares da obra, do viaduto, com segurança. O laudo mostra o tipo de rocha, a resistência, as alterações. É uma forma de conhecer como é o subsolo e como ele está. Naquela área aflora a geologia da nossa região. Fizemos a descrição das amostras coletadas na sondagem. Ali tem afloramento do arenito, o botucatu, que hospeda o Aquífero Guarani; temos também o afloramento do basalto. Os dois estão intercalados. Foi feito um corte no local que permite observar muito bem a duna do deserto, porque lá, assim como Franca, foi um deserto há 200 milhões de anos mais ou menos.
Comércio - Além do solo, o abastecimento de água é outra preocupação na cidade. O senhor defende o uso da água do Aquífero Guarani. Como seria feita?
Paulo - Em Ribeirão Preto, 100% da água é retirada do Aquífero Guarani e Franca capta água superficial. Estrategicamente, acho que ambos estão equivocados. Mas no nosso caso, se cair um caminhão com produto tóxico na cabeceira do Rio Canoas, na divisa de São Paulo e Minas Gerais, onde ele nasce, estaremos numa situação de colapso. Então é preciso diversificar a fonte de abastecimento e mesclar água superficial com água subterrânea. A subterrânea, de um modo geral, é de qualidade melhor e você pode, em muitos casos, fazer o furo no solo ao lado do reservatório para economizar com transporte. O Aquífero Guarani passa embaixo de Franca. Temos em Patrocínio Paulista um posto chamado Marumbé, que produz 80 metros cúbicos de água por hora. O poço, que fica a dez quilômetros de Franca, está a 400 metros de profundidade e capta do Aquífero Guarani. Temos informação na região, muito próximo da nossa cidade, de boa produção de água pelo aquífero.
Comércio - Como é formado o aquífero?
Paulo - É uma rocha sedimentar, arenosa, ou seja, são grãozinhos de areia próximos uns dos outros, como é no Saara. A única diferença é que está mais compactado por outras rochas que vieram depois, está com certa coesão. É como se fosse uma esponja. Entre um grão e outro tem um poro, onde a água se aloja. Então ele tem 35% em média de espaço vazio, então cabe muita água nele. É a água da chuva que o abastece, ela cai nessas rochas. Hoje há estudos para ver qual a recarga dele, porque se conseguirmos fazer um aproveitamento sustentável, a gente extrairia somente o que recarrega com as chuvas. Se fizermos isso, o aquífero irá permanecer, teoricamente, para sempre.
Comércio - A captação no aquífero é mais cara?
Paulo - Suponho que em Patrocínio Paulista a água seja bombeada direto para o reservatório, então não tem distância de bombeamento. E o tratamento é só fluoretação e cloração. Acredito que seja muito mais barato, de melhor qualidade e pouco vulnerável. Temos que mesclar o abastecimento de água subterrânea com superficial.