11 de julho de 2026

Governo tenta desalojar famílias por causa da Copa


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OBRA FARAÔNICA - Vista geral do Estádio Athlone, no subúrbio de mesmo nome da praça esportiva, na Cidade do Cabo. No local já foram gastos cerca de R$ 23,7 milhões em reformas e estacionamento pode tirar seis famílias sem teto de proximidades

Estamos em Athlone, um humilde subúrbio da Cidade do Cabo habitado por negros e muçulmanos. Não muito longe dali, estão áreas comerciais que são muito visitadas por turistas, como Claremont e Cavendish Mall, na Main Road (a principal via expressa da cidade). Nesse bairro pobre está localizado o Athlone Stadium, que será utilizado pela Fifa para abrigar treinos de seleções.


Enquanto homens trabalham para concluir a área de estacionamento nos arredores do estádio, há um impasse entre governo, Fifa e moradores. Logo ao lado da praça esportiva, uma antiga construção, que décadas atrás serviu até de escritório de guerra, tornou-se um abrigo improvisado, mas quase definitivo, para 24 pessoas desabrigadas que dividem entre si seis apertados cômodos há uma década.


Essa antiga construção está no meio dos planos do governo sul-africano e dos organizadores da Copa, porque está localizada dentro de uma área que também serviria de estacionamento para carros dos torcedores que visitarem o Athlone Stadium. O governo, em comunicado oficial, no entanto, nega que esteja tentando remover pobres de suas residências.


A reportagem do GCN Comunicação conversou com uma das famílias que vive no local e o que ouviu foi que já houve uma tentativa de desalojá-las, mas de forma pacífica. “Meu sentimento a respeito da Fifa... Eu não estou muito contente com eles porque eles querem retirar eu e minha família daqui. Como eles podem convidar pessoas a saírem de seus lares quando elas não têm lugar algum para ir?”, questionou Alwryn Abrahams, 40, que há nove anos divide um dos cômodos da antiga casa com a mulher Cindy, 29, e seus filhos Chad, 8, e Zea, de apenas cinco meses.
 

Não se pode dizer que as condições de moradia são piores do que uma shack - típica residência encontrada em uma favela -, mas as limitações são muitas. Para começar, nada de eletricidade. Se quiserem ver televisão, os moradores têm a única opção de obter energia de uma bateria de carro. Se quiserem luz, o único jeito é acender velas que ficam coladas em garrafas de vinho. Se quiserem se esquentar do frio, vão do lado de fora da casa e ficam próximos da fogueira.


“Vim para cá porque não tinha para onde ir”, explica Alwryn, que está desempregado e ainda se lembra de quando ganhava 3 mil randes mensais (cerca de R$ 715) no setor de construção. Quem agora sustenta a casa é a mulher, que recebe auxílio do governo de 500 randes (cerca de R$ 120).


Com um explícito ódio pelo governo do país - que refletiu na torcida contra a seleção sul-africana e o apoio à brasileira -, Alwryn garante que não sairá da área. “Este é um estacionamento para os jornalistas de outros continentes verem”, afirmou, referindo-se que a situação paupérrima em que vivem precisa ser relatada para mostrar a realidade da África do Sul. “A questão não está concluída. Eles vão tentar nos colocar em outro lugar na vizinhança para nos esconder dos jornalistas.”