Você sabe o que é cidadania? Seus filhos sabem? Lembra-se a quem deu seu voto para vereador na última eleição? Sabe do nome de um político que tenha pedido afastamento do cargo ao qual foi eleito apenas para não ser cassado antes?
A maioria das pessoas diz que é informação demais e que isso atrapalha. Então, não se preocupa. Na outra eleição, esquecido, vota novamente sem se preocupar em saber o que seu eleito produziu de bom ou de ruim durante o mandato. Política e seu indispensável conhecimento é apenas uma das pontas do imensurável iceberg cidadão. Quem não se preocupa não contribui para que seu derredor seja melhor e mais justo. Há quem abra jornais para ver só as "figuras"; quem ouça rádio para ouvir música e quem assista televisão para saber das fofocas; e quem se aventure na internet para trabalhar com e-mails (poucos), corromper a escrita da língua nos sites de relacionamento, jogar, baixar filmes e assistir pornografia. Gente que usa para pesquisar, informar-se, aprofundar-se no que quer que seja é a minoria da minoria. Então, é só a minoria da minoria que grita por exercício cidadão nestes tempos bicudos que vivemos.
Em meu tempo, cidadania se aprendia em casa. Educação, moral, ética, respeito a gente adquiria a partir do zelo, carinho, preocupação, puxões de orelha, chineladas e com a tristeza que observa em nossos pais, quando não agíamos certo. Observam-nos a pensar "se daríamos certo na vida". A escola complementava. Quando chegava a época, íamos em busca de cultura. A escola era, por vezes, o único sonho que tinham para nós.
Naqueles tempos os professores não eram agredidos quando saíssem à rua após aplicarem medidas disciplinares indispensáveis à formação integral de seus estudantes. Diretores que conquistassem resultados surpreendentes criando pedagogias próprias para interessar e motivar seus alunos, podiam divulgar e eram premiados publicamente. Alunos respeitavam a "bomba" que mereciam ao final do ano. Sabiam-se culpados. Quantos se tornaram homens e mulheres melhores por causa de uma – ou várias – reprovações. (E quantos e quantas se tornaram piores desde o advento da famigerada aprovação continuada que anda por ai hoje, digna do lema "mande prá frente que atrás vem gente que precisa dos lugares livres".)
Cidadania e sua prática se perderam com a degradação familiar e com o desaparecimento de matérias como Moral e Cívica, Organização Social e Política Brasileira – talvez das únicas ações dignas criadas no período militar, mesmo sabendo-se que parte do que se ensinava era engessado pelo regime – , Música e Canto Orfeônico, História do Brasil e do Mundo, Geografia Brasileira e Internacional (experimente pedir a um jovem de hoje para desenhar um mapa do Brasil e indicar, nele, o Estado de São Paulo. Você vai se surpreender ainda mais se pedir para que indique, no mapa do Estado de São Paulo, Franca, a capital paulista ou qualquer outra cidade).
Continue: pergunte o que os jovens de hoje acham sobre a ação de valentia que um estudante de 15 anos descarregou na coordenadora da escola dele, após ser suspenso. Segundo ele, “ela fez sua mãe chorar quando a chamou à escola, para falar dele”. Poderíamos ainda falar nos estudantes que vão para as escolas de educação continuada mas "enforcam" e vão queimar um "baseado" ou dar uma cachimbada de crack, ou pichar paredes, ou espancar diferentes, ou "ficarem" com coleguinhas e coleguinhas.
Ao este cenário atual, sem cores, méritos ou vida inteligente, não cabem mais considerações. Prefiro resumir: sem a educação, moral e cívica que nascia e produzia frutos primeiro em casa, as escolas de progressão continuada não têm como agregar nada matemático, físico, químico, biológico. Para haver interesse, o candidato a culto teria que conhecer respeito. Isso me faz concluir: cultura sem berço, não existe. E o futuro é incerto.
ATIVIDADE 1
A Escola de Cidadania da Assembléia Legislativa de Minas Gerais tem uma Cartilha de Cidadania que pode ser obtida por download em www.almg.gov.br/CEDIS/EdCidadania.htm. São quatro módulos para computador. Fácil. Simples.
ATIVIDADE 2
As eleições estão quase ai. O Comitê Nacional do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral criou um documento – "Voto não tem preço. Tem consequências"–, disponível em http://www.lei9840.org.br/materiais/cartilhacidadania.pdf – tratando do mau uso das máquinas administrativas, como agir ao testemunhar compra de votos e como se municiar de provas para comprovar crimes. Imperdível. Preceituo a eleitores cegos, surdos e mudos e a quem é decente e quer saber como fazer mais decentes.
WIKIPEDIA
Há na internet uma tentativa de enciclopédia mundial – Wikipedia (pt.wikipedia.org) – construída por internautas. Cada um colabora oferecendo o que tem e isso torna o serviço menos confiável. No entanto,os verbetes podem servir como indicadores a pesquisas sérias. Indico, já que falamos em cidadania, ética, moralidade e política, uma olhadela em"lista de escândalos políticos no Brasil", disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista—de—esc%C3%A2ndalos—de—corrup%C3%A7%C3%A3o—no—Brasil, quase um indexador da corrupção que grassa por ai desde os anos 70, não que não existisse antes. Os links em azul vão a informações que podem embasar pesquisas novas. Os vermelhos, como diz a Wiki, "carecem de mais fontes". Com cuidado, vale consulta.
DEUNOJORNAL
Aqui, sim, confiabilidade. O site Transparência Brasil tem um link especialíssimo chamado Deunojornal (http://www.deunojornal.org.br/), por definição "banco de dados de reportagens relacionadas à corrupção e seu combate, publicadas em jornais e revistas de todos os estados (...)". De quebra, você tem acesso a um "aplicativo que relaciona nomes de até 3 pessoas mencionadas no site e suas ações; ou até 3 assuntos para obter as pessoas citadas neles". É o supra-sumo da possibilidade eletrônica de pesquisa séria. Conhecer - e utilizar - é quase uma obrigação.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br