Nunca se deixará de escrever livros, nem há indícios de que algum dia se deixe de levantar listas de obras-primas da literatura. Sempre houve muito mais livros do que é possível ler; e como eles se multiplicaram ao longo dos séculos, mais e mais listas dos melhores tiveram de ser feitas.
Semanalmente, acompanho a lista dos mais vendidos. Nem sempre a gente concorda com a lista, mas às vezes ela pode um forte elemento indicador de boas obras.
Viva quanto viver, você, leitor, na melhor das hipóteses, só vai conseguir ler alguns dos livros que foram escritos; por essa razão os poucos que você puder ler têm que estar na lista dos mais importantes. Talvez seja um consolo saber que estes tais são relativamente poucos.
Algumas obras críticas são publicadas para facilitar nossa vida, ou nossa escolha. Mas nem sempre o que indicam são obras-primas, mas com certeza são muito importantes. É o caso da obra Os 100 Livros que Mais Influenciaram a Humanidade a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade, organizada por Martins Seymor-Smith, tradução de Fausto Wolff. No Brasil, mesmo, temos algo do gênero, como Os 100 Melhores Contos Brasileiros.
A enumeração das obras-primas é coisa tão antiga como ler e escrever. Professores e livreiros da antiga Alexandria já o faziam. Nas aulas de latim, aprendi que Quintiliano o fez, em prol da educação romana, selecionando, segundo disse, tanto os clássicos antigos quanto os de seu tempo. Na Renascença, os mentores da revitalização da cultura, como Montaigne e Erasmo, faziam listas dos livros que liam. A suposição lógica é que a seleção varie com os tempos, mas há uma surpreendente uniformidade entre as listagens mais bem feitas de qualquer época. Em todas as idades os organizadores de listas incluem tanto livros antigos quanto modernos em suas seleções e sempre se perguntam se os escritores modernos estão à altura dos grandes livros.
Quais os traços comuns que definem uma obra-prima literária? Os seis que vou mencionar, extraindo fragmentos de minha dissertação de mestrado, podem não incluir exaustivamente todas as características deles, mas são os que considerei mais úteis para justificar minhas preferências ao longo de todos esses anos.
1 - As obras-primas são, provavelmente, os livros que mais se lêem.
Não são best-sellers de um ou dois anos; são livros que continuam sempre vendendo muito. E o Vento Levou teve relativamente muito poucos leitores se comparado às peças de Shakespeare ou ao livro D. Quixote. Seria uma estimativa razoável afirmar que a Ilíada de Homero, por exemplo, foi lida por pelo menos 30 milhões de pessoas nos últimos cinco anos.