08 de julho de 2026

Falta educação


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Muita gente não admite, mas pelo menos uma vez na vida já jogou lixo na rua, estacionou o carro em local proibido ou avançou o sinal vermelho. As desculpas, em quase 100% das vezes, se repetem - e não colam: “estava com pressa”, “não encontrei uma lixeira” ou “foi distração”... E nessa toada, jogar lixo nas ruas e calçadas, não atravessar sobre a faixa de pedestres ou estacionar em vagas destinadas a idosos se tornaram ações corriqueiras, involuntárias até.


A reportagem ficou por cerca de duas horas nos pontos mais movimentados do Centro da cidade. Por ser segunda-feira, o movimento estava fraco, mas foi fácil flagrar papéis de balas, palitos de picolé, panfletos e muitas pontas de cigarro “voando” direto para o chão. Algumas pessoas estavam a nada mais que três passos da lixeira, mas não titubearam e, sem sequer disfarçarem, mandaram o lixo para o chão. Em dez minutos nas Praças Nossa Senhora da Conceição e na Praça Barão, o Comércio flagrou cinco pessoas jogando os tocos de cigarro no bueiro, na sarjeta e na rua. Nas duas horas circulando pelo Centro, nenhum fumante jogou os tocos nas lixeiras.


E eles nem se dão conta do que fazem. Virou uma ação automática. Acabou o cigarro, ele vai para o ar. Num piscar de olhos, com um rápido movimento dos dedos, lá se vão as bitucas para o asfalto. Um senhor de 42 anos reagiu com surpresa quando a jornalista perguntou o porquê havia jogado o cigarro no chão no Terminal de Ônibus do Centro. Olhou para o lado e disse: “Nossa, joguei ali, né?”. Depois tentou se justificar. “É que se eu jogasse dentro do cesto, achei que ia queimar os papéis, ia pegar fogo no cesto. Então joguei no chão para não incendiar o cesto... Não pensei muito bem, então peço desculpas por isso. Da próxima vez eu jogo dentro do cesto”, disse ele, fumante há 18 anos e que minutos antes de observar onde jogara o cigarro, havia dito que a cidade tem de ser mantida limpa. “Acho um absurdo jogarem lixo no chão. Tem que manter a cidade limpa, o chão limpo, jogar as coisas no cesto”.


Mesmo quem não fuma, ignora as lixeiras. Sobre o calçadão da Voluntários da Franca, em meio às plantas nos canteiros e até nos assentos dos bancos, é fácil encontrar papéis, potes de sorvete, canudos, latinhas e outros lixos. No trecho da Voluntários entre as Ruas Ouvidor Freire e Monsenhor Rosa, há pelo menos 20 lixeiras. Não precisava jogar sobre as plantas ou no chão. Era só dar alguns passos e colocar no local correto.


O hábito de jogar lixo no chão é tão involuntário que tem gente capaz de ignorar uma caçamba gigante, rente à calçada, e arremessar duas latas de cerveja vazias no chão.


Quem circula nas calçadas não tem o desafio de desviar apenas da sujeira. Quantas vezes você não estava caminhando e só ouviu aquele barulho “vupt” dos ciclistas que teimam em andar sobre as calçadas?


DESRESPEITO
Se sobrar um tempinho e você puder ficar alguns minutos observando os estacionamentos com vagas reservadas terá grandes chances de flagrar motoristas e passageiros que não são idosos, nem gestantes, nem deficientes parando nos espaços destinados a esses públicos. E as vagas nem precisam estar sendo disputadas para isso acontecer. Mesmo descrentes de que conseguiram flagrar esse tipo de ocorrência na manhã de segunda-feira, os repórteres seguiram para um hipermercado de Franca. Em poucos minutos, eis que um casal de 19 e 25 anos de idade chega até o carro estacionado na vaga reservada para idosos, mesmo com espaços livres no local. Diretíssima, a jovem reconheceu o erro de parar no espaço com placas e pintura no chão anunciando: vagas para idosos. “Realmente foi falta de vergonha na nossa cara. É desrespeito. Foi porque a gente estava com pressa mesmo, mas a gente promete que não vai parar aqui mais. A gente está errado sim”, disse ela.


O desrespeito não existe apenas quando os carros estão estacionados. O sinal vermelho é enfeite para muitos motoristas. Faixas de pedestres ou não são usadas por quem deveria ou ficam embaixo dos pneus dos carros que teimam em parar sobre elas. Como esperado, a reportagem flagrou na movimentada Avenida Major Nicácio várias pessoas atravessando fora das faixas de pedestres. No cruzamento da via com a Rua Carlos do Carmo, duas senhoras tentaram atravessar a pista, sentido Centro-bairro, e tiveram que voltar correndo para trás porque o semáforo abriu. Depois se arriscaram novamente no meio da avenida, fora da faixa. Uma delas, ao ser questionada porque não passaram sobre a faixa, disse que se distraíram “porque o trânsito estava calmo”, só que as duas atravessaram a avenida perto da uma hora da tarde, em pleno horário de almoço, quando a via não fica em silêncio nem por um minuto.


PORQUICE’
Outra ocorrência que se tornou comum na cidade é o uso de espaços públicos como banheiro. No fim de abril, o Comércio flagrou um homem urinando numa escultura na Praça João Mendes, em plena luz do dia. O rapaz ignorou a presença de pessoas na praça, desceu as calças e fez xixi na estrutura de mármore.


Há problemas que não podem ser resolvidos com pequenas atitudes, que demandam investimentos, grandes esforços... As situações relatadas nestas linhas, no entanto, para serem evitadas, bastaria um pouco mais de educação e respeito ao próximo.