Estive com a minha família em Cássia no dia 22 de maio, ocasião em que a cidade mineira completou 120 anos de emancipação política. Na mesma data comemorou-se o dia da padroeira da cidade, Santa Rita de Cássia. Tratou-se, pois, de festividade político-religiosa. A igreja Católica e a Prefeitura se uniram para que a festa se revestisse de pleno êxito.
A cidade estava, sem dúvida, engalanada. Milhares de romeiros e devotos se deslocaram para lá e foram recebidos de braços abertos. Na parte religiosa, as missas ocorriam de duas em duas horas, desde 5 da manhã. Os corais da cidade, destacando-se os dois mais antigos – o 'Santa Cecília' da maestrina Remilda Lemos e 'Os Pequenos Cantores de Cássia', idealizado pelo professor Heitor e hoje sob a batuta do meu afilhado Messias e do Patrick –, revezavam nos cantos sacros.
A Catedral de Santa Rita estava ricamente decorada com flores, mais bela e iluminada que nunca. Os devotos, ao entrarem, recebiam uma flor vermelha que era abençoada ao final de cada missa, sob coordenação do Padre Sandro, pároco local.
Do decorrer do dia houve a apresentação de ternos de congada de Cássia e de localidades vizinhas, além de barracas de artesanatos e comidas típicas. O dia festivo encerrou-se com show de uma banda religiosa.
Na ocasião pude rever com alegria a minha cidade que continua sendo, na feliz expressão do poeta Paulo Gama "comprida como uma fita e doirada como um vitral". Revi familiares e amigos que não via há bastante tempo. Foi uma autêntica viagem de volta à minha infância e adolescência. Passei pela Rua Astolfo de Oliveira Filho, onde nasci e vivi parte de minha vida na casa de número 26. Parei por alguns instantes no cruzamento dela com a Rua Paulo Gama.
Relembrei as brincadeiras do "salva", do "esconde", da "Maria sai da lata" e o soltar de pipas, encostado ao muro do falecido José Trócoli, muro que não mais existe pois a casa deu lugar a uma via pública. Alguns casarios antigos – infelizmente – foram demolidos e, sem seus lugares, foram erguidas modernas residências. É o preço da modernidade. Recordei também, com saudade, cada paralelepípedo das ruas. Continuam sendo os mesmos.
Mudei-me de Cássia há 35 anos mas nunca me desliguei dela. Devia a ela e aos meus conterrâneos uma declaração e uma demonstração pública de amor e gratidão. Reconheço e nunca nego que devo muito à nossa Franca do Imperador. Tenho por esta cidade paulista grande apreço e gratidão, pois aqui cheguei cheio de planos e expectativas. Aqui me formei, aqui nasceram minhas filhas e aqui conquistei valorosos amigos. Porém, para a minha completa alegria, há que se reconhecer a estreita ligação que há entre as duas cidades. O barro de Cássia ajudou e continua ajudando a construir as casas de Franca e, em contrapartida, a pujança econômica de Franca contribuiu e contribui decisivamente para a economia cassiense. São, portanto, cidades co-irmãs. Ninguém ousará negar.
No domingo retornei a Franca, feliz pelos reencontros e rogando em preces à poderosa Santa Rita para que continue a proteger e interceder pela sua Cássia e por seu povo, estendendo o seu manto protetor à co-irmã Franca e a todos que aqui moram.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca