08 de julho de 2026

Na saída dos bancos


| Tempo de leitura: 4 min

Foram-se os tempos do delegado Guido Bettarello, mas suas lições nunca serão esquecidas. A cidade era menor e ele conhecia a maioria dos malandros que andavam por aí. Com jeito e boas maneiras, mandava uma conversa de pé-de-ouvido e o fora-da-lei se derretia todo. As pessoas tinham respeito pela autoridade e os bandidos... mais ainda.

 

A forma da justiça atuar também era diferente. Não havia tantas brechas nas leis, tantos direitos garantidos. Quem errava, pagava. Hoje, não. A malandragem conhece a lei como a palma da mão. Quando o fulano passa a ter uma "capirava" (relação de crimes cometidos) extensa, vai à esquina, oferece pequenos dinheiros e arranja soldadinhos, menores de idade, protegidos até à exaustão pelo "melhor código de defesa da criança e do adolescente do mundo", para continuarem por eles. Há total certeza de impunidade. O menor, quando apreendido – antes, era preso e mandado aos comissários de menores e, destes, a mamãe, papai e suas correções inesquecíveis – vai logo avisando: "põe a mão não, tio. Sou di menor e a coisa vai ficá ruim pro seu lado". Aliás, não adiantaria levar a familiares. Temos noticiado muito sobre famílias inteiras - mamãe, papai, titios e até vovós – formando corporações criminosas.


Bem, vou direto ao ponto. Em três dias, um empresário, uma senhora de cerca de 40 anos e um casal foram assaltados por motoqueiros, após deixarem os caixas de bancos, na cidade.


O Dr. Guido, que subia em telhados para convencer bandidos a se entregarem, tinha, em sua época, o respeito das pessoas. O que dizia, todos ouviam, compreendiam. Hoje, jornais, emissoras de rádio, de televisão e quem se informa, grita para que todo mundo aumente vigilância sobre tipos estranhos que estão nas filas dos bancos, mas parece que prevalece a certeza absoluta de que "comigo, nunca vai acontecer nada". Mas acontece. O bandido, esperto, especialista em observar a desatenção das pessoas, está sempre de olho. Só quando cai no golpe é que o cidadão finalmente compreende que Deus só ajuda a quem também se ajuda ("a quem cedo madruga, diria Dr. Guido). É preciso fazer a nossa parte.


Os motoqueiros, sobre quem contei ali atrás, avisam-se por celular logo que observam o incauto sacar e sair. Nos três casos que contei há uma linha de conduta que se repete: são dois motoqueiros, em motos pretas. Na quarta-feira, o empresário sacou dinheiro, saiu e entrou em seu carro. Dirigiu-se, com o filho, a uma lanchonete. O local onde parou, sem grande movimento, era propício. Ele o filho foram rendidos. Na quinta-feira, os assaltantes seguiram uma senhora que se deslocava a pé. Local ermo, o golpe. Ontem, um jovem sacou dinheiro em agência da Estação. Foi até o centro onde se encontrou com a noiva. Na mesma moto, seguiram. Quando pararam, em outra região da cidade, foi rendidos. Sempre dois motoqueiros, moto preta, pacientemente no aguardo da melhor ocasião para abordar.


Não acredito que os órgãos de segurança tenham capacidade e estrutura para acabar com estes assaltos, se não contarem com a vivacidade dos cidadãos.


Guido Bettarello, que ainda me lê – e muito me honra – certamente aconselharia as pessoas a serem menos frias e racionais, donas do mundo, auto-suficientes. O bandido está ai para pegar exatamente esse tipo de gente. É preciso olhar em torno do próprio corpo, ler, informar-se, saber das coisas.


Tento contribuir, com este texto. Como diria Chaves, aquele personagem legal da televisão – e não o outro – sigam-me os bons!

 

OLHAR E OUVIDOS ESPECIALISTAS
Na velocidade com que andam hoje as pessoas se esquecem de olhar para o lado. Pensamos - aliás, temos certeza - que cada um deve cuidar de sua própria vida e não se preocupar com o outro. Errado. Pode ser que você ainda não tenha percebido - a velocidade, sabe? -  mas há gente fazendo carreira desenvolvendo virtudes que todos deveriam praticar, mas que colocamos de lado faz muito tempo: observar atentamente e ouvir mais atentamente ainda. Quem sabe ouvir galga posições privilegiadas. Não ameaça ninguém porque não fala na hora errada. Torna-se objeto de atenção. O problema é que ninguém mais gasta tempo em treinar estes talentos. Não há tempo a perder...


AMIGOS DO ALHEIO
Está ai outro termo do tempo de meu amigo Guido Bettarello. Quem é amigo do alheio não dorme. Está sempre criando fórmulas para enganar o outro. Algumas, sofistica. Pense naquele observador sobre o qual falamos no texto principal, na fila de um banco. Olha cada detalhe de ações e pessoas. Mantém-se vigilante e, ao mesmo tempo, atua para não ser pego. É capaz de entender, mesmo à distância, o que alguém faz na boca de um caixa. Aprende a contar dinheiro à distância. Olhando vestuário, aferindo idade, força física, facilidade ou dificuldade com o observado guarda coisas no bolso ou na bolsa, é capaz de eleger a melhor vítima em segundos. Ai, basta um telefonema ao cúmplice, que está do lado de fora. Daqui em diante, atente. Esses “especialistas” estão nas ruas, às vezes atrás de você, ou ao lado, somente observando. Pode ser até que converse com você. Então, como diria Guido em outros tempos, desconfie; não fale sobre você. Apenas ouça.

 

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br