João (nome fictício) estava com 7 anos quando teve curiosidade de experimentar maconha. Sabia onde vendia a droga em seu bairro. Conseguiu R$ 2, comprou, fumou e não parou mais. Anos depois, teve o mesmo desejo em relação à cocaína e a mesma atitude. Há quatro meses, despertou a curiosidade de fumar crack. Não consegue passar um dia sequer sem consumir. Está viciado aos 15 anos de idade. “Fumo 24 horas por dia. Tem dia que fico dormindo direto porque atravesso muitas noites fumando”.
A casa de três cômodos onde mora com a mãe tem poucos móveis. Só restou a geladeira, uma mesa e a cama do garoto sem o colchão porque ele queimou usando drogas. O restante vendeu para sustentar seu vício. A mãe ficou sem o fogão, sem o gás, sem as panelas. Só não perdeu o restante porque escondeu na casa da avó do garoto.
No quarto dele, as latas, palitos de fósforo e marcas de queimado na cama denunciam o ambiente que escolheu para consumir drogas. Costuma fumar sozinho, enquanto a mãe está trabalhando. João disse que o efeito do crack é mais forte e mais rápido. “Na hora que você puxa (traga), já bate um baque. Só que é só na hora. Enquanto você está fumando, já vai tramando, pensando em como conseguir mais”.
As pedras são encontradas a partir de R$ 5. João pede dinheiro para a mãe ou vende sucata para conseguir dinheiro. “A gente vende o que vê na frente, faz até terra virar dinheiro para ter a droga, arrumar o maldito (crack)”.
Com 15 anos, o adolescente já sente os danos da dependência. “Cuspo uma borracha preta de vez em quando. Meu pulmão já era. É por causa da resina do alumínio quando fumo crack na lata”.
No ano passado, João se internou duas vezes numa fazenda para se tratar. Ficou 30 dias sem usar drogas, começou a trabalhar como pespontador, comprou roupas e passou a cuidar da higiene pessoal. Mas teve recaída. Espera agora ser internado numa clínica em Guaratinguetá. “Vou parar. Quero tudo que já tive, meu serviço, estudar”.
A mãe, de 48 anos, espera ver isso concretizado. “Não ponho mais nada dentro de casa porque ele pega tudo. É direto me pedindo dinheiro. Sempre tenho que dar dinheiro para ele porque se não é torturado e é ruim você criar um filho para os outros torturarem”.