08 de julho de 2026

Vivendo e aprendendo


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Dia desses me vi instigada pela palavra piti, que ultimamente tenho ouvido muito em frases do tipo aquele fulano voltou a dar piti, no sentido de quem se comportou de jeito atacado, excessivamente nervoso. Como a escuto geralmente em boca de gente jovem, imaginei que fosse uma gíria inventada por alguma tribo e depois transmitida a outras, como tem sido comum em nossa língua, repleta de transformações e estrangeirismos, mais americanismos, nas últimas décadas. A língua é dinâmica, todo idioma está sempre se reconfigurando no seu segmento léxico, onde as palavras podem mudar de som e sentido e não poucas vezes são mutiladas, deformadas, esquecidas e deletadas. Depois de procurar em vários dicionários, sem sucesso, encontrei a explicação para piti no delicioso livro de Márcio Bueno, A Origem Curiosa das Palavras, editora José Olympio. Está lá, na página 183: “Trata-se de uma abreviação de ‘pitiatismo’, designação dada à histeria pelo médico francês de origem polonesa Joseph Babinsky (1857-1932)”. Fiquei surpresa. Piti não é só frescura, é doença pra valer. Bem que eu desconfiava. Isto elucida muitos comportamentos bizarros na terra dos meus sonhos. Igual, outra não vi.


Fui folheando o livro, cada vez mais interessada, pois constatava que tinha me pautado até então por noções erradas na avaliação etimológica de muitas palavras. Do p de piti voltei ao a e parei em aloprado. Este substantivo, que entre nós significa amalucado, vem de alorpado, usual em Portugal. Ao migrar para o Brasil, o termo, que deriva de lorpa e por lá é sinônimo de tolo, tonto, sofreu alteração chamada metátese, assim mesmo, sem s no meio. O saudoso filólogo João Penha nos ensinava no curso de Letras que tal fenômeno linguístico é caracterizado pela troca de posição de fonemas no interior da palavra. Outro João, nosso imenso escritor Guimarães Rosa, considerava o termo uma formidável criação do povo e pediu sua dicionarização, no que foi imediatamente atendido.


 Seguindo a ordem do alfabeto, passeava meu olhar pelas páginas quando de repente me fixei em beócio. Desconhecia por completo que antigamente os habitantes da Beócia, lugar tão bonito da Grécia, eram tidos pelos refinados atenienses como grosseiros e estúpidos. Daí nos chegou o adjetivo com o sentido de curto de inteligência, ignorante, boçal. Beócio, pois.


Um pouquinho abaixo desta categoria, mas à frente no espaço físico que são as páginas do livro, me deparei com borra-botas, usado no lugar de reles, insignificante, ordinário, desprezível. Para alguns autores, a origem repousa na figura do engraxate inexperiente ou inábil que ao exercer o seu ofício manchava com a graxa mal espalhada as botas do freguês. Não é mesmo uma imagem plástica?


De muito relevante achei nada nos verbetes começados com a letra c. Mas na d minha atenção foi despertada para despautério, que é asneira desmedida, grande disparate, despropósito. Francanamente traduzível por “resumo de algumas situações que chegam à redação do Comércio, geralmente às terças-feiras, revogadas as disposições em contrário”. Nunca imaginei que sua raiz estivesse no francês Jean des Pauteren, nome de um gramático do século XVI, autor de uma obra, Comentarii Gramatici, muito difundida pela sua extrema confusão de conceitos, um tipo de samba do crioulo doido da época. Márcio Bueno, criatura bem-humorada, arremata a informação dizendo que se Des Pauteren pretendia alcançar a imortalidade, por vias tortas o conseguiu.


Da próxima vez quero falar sobre palhaço e hollerith.

 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço