Olha só como são as coisas. Passo os olhos por tudo que está escrito: mania de ler mesmo e anotar o que me atrai: tenho sempre à mão caderninho de anotações e gravadorzinho.
Estava em algum lugar a frase que polarizou momentaneamente minha atenção: "Defendere i tuoi sogni e idee davanti alla folla è correre il rischio di perdere le persone". Não anotei autor, não sei quando li, só sei que transcrevi num pedaço de papel e com caneta verde – caderneta e gravador tinham sumido – a observação que colei na tela do computador. Ela dizia, portanto, que 'defender sonhos e idéias publicamente é correr o risco de perder pessoas'. Fica mais imponente e bonito em italiano, convenhamos, mas é assustadora a mensagem. Nas duas línguas. Se de um lado amedronta e sugere que nos calemos para não criar polêmica, do outro alerta que ser verdadeiro e sincero é correr risco de ficar sozinho.
Transcorreu um bom tempo entre o alerta da frase e a noite quando alguém me contou que um rapaz deixou de ser meu leitor desde um dia no qual revelei publicamente nunca ter acreditado que o homem tivesse ido à Lua. Ele ficou tão indignado com o que julgou ser uma heresia que, sem que eu soubesse, botou um ponto final nos meus textos e passou a me ignorar. Nunca mais leu uma linha, acha que eu sou louca, deve me espinafrar. Deve não, me ridiculariza com vontade: quando a pessoa nos pôs em contato através do telefone, o ex-leitor falou comigo no mesmo tom usado por um colega padre há muitos anos, ainda na faculdade, ao descobrir que eu não professava fé religiosa.
Fiquei triste, em ambas as situações. Com o colega padre porque ele convivia comigo e não relevou que, se eu não tinha carteirinha ou rótulo tinha tolerância, respeitava meus colegas e professores, cumpria com meus deveres, pensava no próximo com amor, não fuxicava, não traía, não esparramava mentiras a respeito de ninguém, era conciliadora e pacificadora quando havia desavenças e até tinha deixado que ele colasse de mim numa prova... Com o rapaz enfurecido, porque eu não sou a única que não acredita no 'american dream' e, muito menos, no 'american miracle'... Queria que soubesse – para não se sentir constrangido – ele não é o único que acha que eu falei besteira: há quem se dobre de rir das minhas ideias... Mas que, por outro lado, houve quem concordasse comigo, enviasse mensagens de apoio e disponibilizasse outros argumentos que fortaleciam os meus, que eu desconhecia. Sem concordar comigo, houve até quem escrevesse dizendo que a partir daquele texto, parou para pensar e viu que a teoria da grande mentira lunar tinha fundamento!
Algumas pessoas se sentem curiosas por saber de onde surgiria inspiração, como seria o processo da escrita do meu texto. Como é que é? perguntam... Assim, até agora eu disse: no pinçar o assunto no vasto universo de fatos e temas que permeiam o cotidiano. Prossegue no recolhimento de argumentos para fortalecer seu desenrolar.
Sensibilidade – até para escrever sobre assuntos econômicos – e uma imensa paixão interior que escorre pelas falanges enquanto a gente escreve. Depois de escrito e imediatamente após ser publicado, vem outra parte: a do questionamento de seu valor. Há quem goste de um ou outro; há quem deteste a maioria. Há quem confesse 'amar todos'! Há quem afirme, 'só de alguns!'. Não há unanimidade no julgamento, o que constitui impulso na busca de mais qualidade. Era assim, posso dizer.
Analisando os acontecimentos, lembro-me da frase e me vejo diante de um novo dilema: ou me acovardo e só escrevo o que as pessoas toleram ler ou continuo na minha toada, mesmo consciente de que revelar minhas crenças e polemizar pode, eventualmente, me afastar delas. Difícil, não?
ETIQUETA
Ouvi comentário de que as regras de etiqueta voltaram à moda. Achei esquisito. Quando foram consideradas démodé? Desuso é uma outra coisa e isso realmente elas ficaram: esquecidas, empoeiradas, mal empregadas e até deixadas de lado, mas fora de moda, nunca! Nem sonho com a volta de ser legal alguém abrir porta de carros ou elevadores para as mulheres mas é bom saber que talvez voltem a ser interessantes atitudes simples como não atravessar a frente dos outros, cumprimentarmos uns aos outros e, talvez, o uso de expressões como 'muito obrigado', 'por favor' e 'dá licença'.
PIRATARIA
Estou em dúvida: se os filmes recém-lançados no mercado já estão disponíveis na internet para serem copiados por quem quer que seja, o que faz da venda de suas cópias um crime de pirataria? Se eu contratar alguém para vir até minha casa para fazer esse trabalho por mim, estarei corrompendo alguém? E se a pessoa fizer o serviço em sua casa simultaneamente para mim e para outros interessados, estaremos todos cometendo um crime?
DÚVIDA
Falando em pirataria, copiar nome e natureza de evento é esperteza ou clonagem? Repetir a fala do outro, sem lhe atribuir criação é ato de admiração ou velhacaria? Imitar alguém – fingindo ser o que não se é – pode ser considerado afeição extrema ou é maldade das grossas? Visitar uma propriedade, ficar atento nos detalhes, depois copiar, reproduzir e mostrar publicamente, sem revelar a origem da idéia é posse indevida dela ou roubo mesmo? Com a palavra os arquitetos, decoradores, publicitários, escritores, pintores, organizadores de eventos e donos de estabelecimentos comerciais de Franca.
FRASES
Duas, antológicas: 'Haja o que hajar, o Corinthians vai ser campeão!' (Vicente Matheus preconizando vitória do Timão). Minha predileta, dita por vereador de Pouso Redondo, cidade de Santa Catarina, justificando sua precisão e clareza num debate: 'Comigo, é tudo preto no branco ! É assim, ó: ou é ou deixa de é!'.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br