16 de março de 2026

Sincronicidade


| Tempo de leitura: 5 min
A lei das probabilidades define certos encontros como impossíveis. A vida mostra o contrário.

“Coincidência é a maneira que Deus encontrou para permanecer no anonimato”
Albert Einstein
, cientista alemão

 

Franca é hoje uma cidade razoavelmente grande, mas não é nem de longe uma metrópole. Portanto, o raciocínio lógico classificaria como natural o fato de pessoas conhecidas se encontrarem umas com as outras, casualmente, nas ruas, nos bares e restaurantes, no cinema, em eventos sociais, nos supermercado, com alguma frequência. Mas a vida desafia a lógica e os fatos nem sempre acontecem assim. Quer seja pelo ritmo de cada um, pelo acúmulo de compromissos de trabalho ou por universos muitos distintos, o fato concreto é que é bem possível passar anos e anos sem cruzar ou mesmo ter notícias de amigos de infância, de primos, de antigos colegas de trabalho. Mesmo em Franca.


Tenho comigo muitos destes exemplos. Márcio de Lima Freitas, o Pim, um amigo de todas as horas de meus primeiros anos de vida, é alguém que há muitos anos não vejo. Nem de passagem. Sei que se casou, que é pai, que vive em Franca, e só. Do meu tempo de escola, sempre na Dinâmica Espiral, onde passei doze anos de minha vida e período ao qual sou muito agradecido por ter aprendido grande parte do pouco que sei, não faltam boas lembranças. Das diretoras, as “tias” - sim, sou do tempo em que a gente chamava professora de “tia” - Lígia, Vera, Maria Helena e Renata, a mais brava de todas. De professoras como Erotildes, Silvinha, Consuelo, Lúcia. Heloísa e Marina, sempre lindas e arrumadíssimas. Vera, que me despertou o gosto por história e, especialmente, por mitologia grega. E amigos como o Lelo, Danilo Chedid, Fernandinho do Couto Rosa, Rafael Vecchi Pedro, Téti Brigagão, Rodrigo Gomes, Roberta Guimarães, Mariângela Rosa, Ruy Gabriel Balieiro Filho, Priscilla Santos Lima, Cristiana Arruda, Lavínia Ruas Batista, Luis César Grecco Barbosa, Eleonora Baguera Leal, Murilo Jorge, Daniela Mestres, Tatiana Farah de Mello, Carina do Couto Rosa. São pessoas queridas, desta parte da vida que a gente nunca esquece, mas cujos encontros nos últimos vinte anos contam-se nos dedos das mãos. Alguns, como a Tatiana, a Carina e a Daniela, nunca mais vi. Não há culpados, nem há lamentos. Há saudade. Mas a vida é assim. Ficam as lembranças, indeléveis.


Por tudo isso, três episódios acontecidos nesta minha última viagem ganham contornos de bizarrice. São eventos que não poderiam ter acontecido mas que, de alguma forma, se tornaram reais, por mais absurdo que sejam. O primeiro deles nos surpreendeu na noite de quarta-feira, 14 de abril. Tínhamos reserva para jantar no restaurante localizado no alto na réplica da Torre Eiffel, em Las Vegas. Às 21h30, pontualmente, nos apresentamos ao maitre. Fomos conduzidos a nossa mesa. Minutos depois Beatriz Ávila, aqui do Comércio, topou com o impossível. Numa mesa a centímetros de nós, sem que houvéssemos combinado qualquer coisa, estavam pessoas connhecidas. Aqui de Franca. Duvidamos. Ela insistiu. “É a cara dela. E estão falando português”.


Permaneci incrédulo. Não seria possível. Vegas recebe 38 milhões de turistas por ano - 100 mil pessoas diferentes a cada dia. Estávamos a 17 horas de vôo de casa. Há centenas de hotéis, milhares de bares. Como poderiam estar sentados, lado a lado, pessoas que se conheciam, sem que houvessem combinado, no mesmo resturante, na mesma data, no mesmo horário? Meia hora de diferença, um dia a mais ou a menos, um outro restaurante ou, ainda, simplesmente uma mesa mais distante, tornariam um encontro destes impossível. Beatriz levantou-se e foi tirar a prova. Deu três passos em direção à mesa e apresentou-se. “Boa noite, sou Beatriz Ávila, do Comércio. Você é a Marília Celine, não é? “. Era. Absurdamente, era. A estilista e empresária estava comemorando o aniversário na companhia do marido, da mãe e do namorado numa viagem aos Estados Unidos. Foi um susto recíproco. Dos grandes.


Dez dias depois estávamos em Nova Iorque. Domingo chuvoso, frio. Saímos do hotel após o almoço e caminhamos rumo à catedral de St. Patrick. Descemos pela Fifth Avenue, a famosa 5a. Avenida, em meio à multidão que não cessa nem nos finais de semana. No meio de um cruzamento, uma voz pronuncia o impossível, mais uma vez. “Não acredito... Junior, você por aqui”. A ficha demorou uns cinco segundos para cair. Do outro lado da rua, em plena Nova Iorque, estava Erich Mareto. Para quem não se lembra, foi ele o empresário responsável por trazer o McDonald`s para Franca. Morou uns bons anos na cidade até se transferir para Uberaba, onde cuida de outra loja da rede. Estava chegando do Canadá, onde havia participado de uma reunião, e ficaria apenas dois dias ali antes de voltar ao Brasil. Saíra do hotel para comer alguma coisa com um amigo, tempo suficiente para cruzar conosco. Desde que se mudara de Franca, nunca mais o havia encontrado. Fui revê-lo no meio de N. Iorque.


Havia ainda uma última demonstração de que a vida, muitas vezes, pode ser absolutamente imprevisível. Embarcamos de volta ao Brasil às 21h55 de sexta-feira, 30 de abril, no vôo 121 da Delta Airlines. No Boeing 767 cabem mais de 300 pessoas. O vôo estava lotado. Everton Lima, sentado na última fileira, torcia para que a poltrona ao lado da sua permanecesse vazia. No último instante, uma passageira se apresentou. Sentou-se. Começaram a conversar. A mulher contou que era produtora musical. Estava acompanhando a banda numa turnê. Everton disse que era radialista. De Franca. A moça lembrou que já tinham tocado aqui. “Onde?”, quis saber. Solícita, a moça emendou. “Tocamos numa festa maravilhosa, de um grupo de comunicação de lá...”. Não seria possível. Ou seria? “Acho que vocês tocaram para gente...”, disparou Everton. Tocaram mesmo. A tal banda á a Big Time Orchestra, que animou o primeiro Top of Mind. E estavam todos ali conosco, no mesmo vôo, retornando para o Brasil.


A lei das probabilidades define encontros assim como virtualmente impossíveis. A vida, sempre surpreendente, nos mostra o contrário. Para Joelma Ospedal, editora-chefe aqui do Comércio, a explicação está numa espécie de sincronicidade que rege tudo e faz com que determinadas coisas, por alguma razão cuja compreensão nos escapa, permaneçam de algum modo conectadas. Julia Nightingale, nossa designer-chefe, tem um palpite curioso. Para ela, “o mundo é uma pracinha”. Pode até ser. Só não consegui entender ainda porque nesta pracinha de 6 bilhões de almas nos encontramos com algumas pessoas de forma tão improvável. E, de outras, nem notícias temos. Na dúvida, apelo a Shakespeare em sua magistral obra, Hamlet. “Existem mais coisas no céu e na Terra, Horácio, do que a tua filosofia jamais sonhou”. Falou e disse.