A Folha Ilustrada publicou, dia destes, artigo sobre o ateísmo e o filósofo Anthony Few, ele que, ao final da vida, aderiu à crença em Deus. O autor do artigo procurou mostrar que Few, na sua juventude, nutria raciocínio que o levava a descrer totalmente da existência do Supremo Criador. Informa, contudo, que o antes ateu, mais tarde, ao chegar à velhice, convenceu-se de que a vida não poderia ser explicada pelo acaso e que, possivelmente, poder-se-ia atribuir a Deus os coisas da existência.
Diante de acontecimentos vários e trágicos, o filósofo não tinha como justificar os fatos. Para ele, embora existindo Deus seria indiferente aos problemas humanos e que tudo aconteceria à sua revelia, porquanto deveria estar ocupado com problemas mais sérios do universo. A nosso ver, tal maneira de raciocinar deriva da visão antropomórfica de Deus, isto é, da ideia de que Deus é um homem idoso, residindo em algum lugar do Universo, possivelmente no centro. Tal imagem, contudo, foi desfeita por Jesus, quando disse à samaritana que 'Deus é espírito e como tal deve ser adorado'. Ora, o espírito não tem morada fixa e pode agir em todo o espaço, desde que tenha evolução para tanto. Sendo Deus a perfeição absoluta, ele se faz absolutamente onipresente!
Segundo a Doutrina Espírita, Deus estabeleceu Leis para reger o Universo. São estas leis que, cumprindo seus objetivo supremos, qual o da evolução de tudo, agem em benefício de toda a Criação. Quando descumprimos qualquer de seus desígnios contrariamos seu princípio evolutivo e estabelecemos para nós dor, sofrimento, dificuldade.
Assim, Deus não está de 'braços cruzados' observando sua criação se atritando. Não! Deus é agente de todo o processo a que nos vinculamos. Ele não é a causa do nosso mal. Nós é que somos os causadores dos nossos sofrimentos ao descumprimos suas leis. Daí porque não cabe a pergunta 'mas, Deus não está vendo?'. Claro que está! No entanto, tudo ocorre segundo a manifestação das Suas Leis, não havendo privilégio para ninguém.
Todos estamos submetidos aos mesmos preceitos divinos, acreditemos ou não, queiramos ou não. Assim, diante de acontecimentos que nos incomodam e para os quais não temos explicação plausível, não os atribuamos à vontade de Deus. Fomos nós mesmos, os humanos, que criamos pelo mau uso do nosso livre-arbítrio, os processos a que estamos submetidos.
Dirá alguém: 'Deus não pode intervir?' Claro que pode. Entretanto, na nossa teimosia, somos nós mesmos que criamos as condições para que os acontecimentos se precipitem. Muitas vezes a Misericórdia Divina nos socorre pela ação dos benfeitores espirituais. Isso, todavia, não é privilégio, mas fruto do merecimento de cada indivíduo. Contudo, tantas são as vezes que reincidimos que o melhor, segundo a Sabedoria Divina, é deixar-nos à mercê de nossa vontade, colhendo o que semeamos. Foi o que disse o Mestre Jesus: 'A cada um segundo as suas obras'.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais e diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca (IDEFRAN)