Sem coragem para assumir as trapalhadas que só recrudescem, e sem lucidez para entender que a ignorância é a mãe de todos os males, a Câmara Municipal de Franca achou mais fácil colocar a culpa na imprensa pela péssima imagem junto à população. É por causa dela que os vereadores têm virado motivo de chacota em todas as rodas onde assuntos sobre a edilidade vêm à tona- assim pensam e por isso reagem, esquecidos de acrescentar à frase: é por causa dos repórteres que publicam a verdade. Assim não fosse, ninguém saberia do despautério que ali viceja, a tal ponto de vereador que apresentou com veemência a quebra de sessões não ter comparecido no horário que ele próprio defendera com ímpeto audaz. Desde que este episódio veio a público, há duas semanas, criou-se uma caça às bruxas, com a Corregedoria abrindo investigação para descobrir qual funcionário teria avisado a imprensa de que a sessão de 27 de abril começaria às 9 horas.
Então, depois de tudo bem combinado, na sessão da última terça-feira os vereadores (exceção feita à Graciela Ambrósio, a seu colega de partido, Miguel Laércio Matias, e ao tucano Marcelo Valim, que se posicionaram contra) decidiram assestar suas baterias contra a imprensa. Primeiro, exigindo que cada jornalista que cobre o dia a dia do Legislativo se identifique para entrar no recinto. Depois, proibindo a presença de representantes da imprensa no plenário, durante as sessões (podem acompanhar à distância), além de vetar a funcionários que forneçam qualquer informação a jornalistas, sob pena de serem até demitidos.
Ou seja, numa época em que o Brasil se posiciona de forma vigorosa contra qualquer tipo de cerceamento da livre informação, a Câmara de Franca retrocede vários passos para lançar mão do principal instrumento de regimes totalitários: a censura.
O mais estapafúrdio nesta história são as tentativas do presidente em explicar o inexplicável. O médico Joaquim Pereira Ribeiro tem um perfil pessoal sem arranhões. Não lhe pesa nenhuma mancha como ser humano, cidadão e profissional. O mesmo não se pode dizer de sua persona política, marcada por uma espécie de síndrome invertebrada. A imagem de ser-em-cima-do-muro que se colou ao seu desempenho na área legislativa revela uma falta de atitude assertiva que nada tem de positiva. Quem quer agradar a todo mundo acaba despersonalizado. Assim, quando poderia dar um belo passo na direção de uma biografia consagrável, legando à posteridade uma nova sede para a Câmara de Franca, exibe gesto dos mais desprezíveis, impondo uma ordem de extremo autoritarismo que só poderia ser compreendida num contexto ditatorial. Mancha sua biografia referendando a prática de ato cuja violência tenta disfarçar com explicações burocráticas. Nem nos piores anos do regime militar a imprensa foi submetida a tanta coação, pressão e cerceamento no recinto do Legislativo francano.
Rui Barbosa dizia, repetindo os latinos, que o poder corrompe. Parece que em Franca também inebria, tem influência alucinógena e traz entre seus efeitos colaterais o emburrecimento e a alienação. É o que demonstram os vereadores incapazes de perceber a insanidade dos seus atos e o ridículo a que expõem o poder para o qual foram eleitos.
Esquecem-se de que os homens públicos, mais que os outros, escrevem no presente aquilo que no futuro será lembrado como história. É certo pois que já estão inscrevendo seus nomes como integrantes da pior legislatura de que já se teve notícia desde que a cidade deixou de ser vila.