Dia desses,o pai da jornalista Nelise Luques, que trabalha no Grupo GCN como repórter do Jornal Comércio da Franca e da Rádio Difusora, estava caminhando pelas ruas do Jardim Guanabara quando avistou um pássaro numa árvore. O Sr. Nivaldo Luques Moreira, que gosta de apreciar todas as manifestações da natureza, olhou com atenção para o pássaro e pensou: “Nossa, que estranho, ele parece se confundir com o tronco da árvore!”
No mesmo instante telefonou para a filha e pediu a ela que lhe levasse uma máquina fotográfica. Ela então foi e fotografou o pássaro esquisito. Depois, como nem pai nem filha sabiam o nome dele, pois o viam pela primeira vez, enviaram a foto para o biólogo Tadeu Junior, que é professor na Unifran.
Tadeu olhou e na hora falou: “Nossa! Um urutau, pássaro muito raro de se ver, ainda mais nas cidades. Até na floresta ele se esconde!” Entusiasmada com a descoberta do pai, Nelise trouxe a foto para as pessoas que fazem o Clubinho. Todos acharam que as crianças gostariam muito de conhecer a foto e os hábitos deste animal. Por isso estamos aqui hoje, para contar aos leitores um pouco da história dele.
O nome
A palavra urutau é de origem indígena. Foram os índios que deram este nome para o pássaro. Ela deriva da junção de duas palavras: guyra, que significa ave, e taú, que quer dizer fantasma. Quando avistavam o pássaro falavam: guyrataú. Como este g na língua tupi quase não é pronunciado, os portugueses, quando aqui chegaram, entenderam uirataú. O nome ficou assim variando, até hoje, com a sílaba tônica ora no ú, ora no a. O sentido é: “ave fantasma”
O significado
Mas por que ave fantasma? Em primeiro lugar porque é ave noturna, que só aparece à noite, quando a lua surge no céu. Em segundo lugar, porque seu canto é muito triste. É como se ele falasse reproduzindo os sons de seu nome:
u-ru-tau! u-ru-tau! Ouvido assim em noite de lua cheia, parecia aos índios a voz de algum ser sobrenatural. Ah, o outro nome do urutau, na língua tupi, é mãe-da-lua. Porque ele canta olhando para a lua.
A singularidade
Singularidade é algo que só um ser tem. A característica singular do urutau é saber usar suas plumas para se disfarçar. Como elas são da cor dos troncos, isso possibilita ao urutau confundir-se com eles. Quem já viu de perto um urutau, como o Sr. Nivaldo Luques Moreira, diz que ele fica estático, paradinho, e não se assusta com nada. Desta forma, imóvel, passa despercebido apesar de seu tamanho, mais ou menos 37 cm.
As vantagens
Tudo na natureza tem uma razão de existir. Ao se camuflar, o urutau foge aos predadores, que passam por ele e não o enxergam. Ele escapa com vida, não é atacado porque não é visto. Esta é uma vantagem de se confundir com a árvore onde se abriga. A outra diz respeito à alimentação que lhe garante sobrevivência. Ao permanecer quietinho e discreto, ele consegue apanhar com o bico os insetos que passam pertinho dele sem o perceber. Camuflar-se, para o urutau, é uma condição de dupla sobrevivência; escapa aos ataques dos maiores e come os menores. É uma lei da selva.
Folclore
Os povos das matas e da regiões rurais sabem muitas histórias sobre o urutau. Correm de boca em boca e foram criadas há muito tempo, pela imaginação dos homens. São histórias bem bonitas, onde ele aparece como símbolo de força. Em alguns lugares é conhecido como protetor da floresta. Para contar como apareceu no mundo, os índios da Amazônia tem uma lenda superinteressante e bem romântica chamada Nheambiú e Cuimbaé.
Nheambuí e Cuimbaé
Lenda para explicar como nasceu o Urutau
Nheambiú, filha de um poderoso cacique guarani, havia se apaixonado por Cuimbaé, jovem guerreiro de outra tribo, feito prisioneiro por seu pai. Por questões de honra e de ordem, os jovens não podiam se encontrar. A moça, muito triste, passava todo o tempo chorando. Certo dia, cansada de sofrer, voltou a pedir aos pais que a deixassem se casar com Cuimbaé. O cacique não aceitou:
- Cuimbaé pertence a uma tribo inimiga, este casamento não pode acontecer.
Ao ouvir a resposta, a moça fugiu de casa, escondeu-se no meio da floresta. O pai e os irmãos foram atrás de Nheambiú, pelo interior da mata, seguindo as pistas deixadas por ela. Encontraram a jovem. Ela estava imóvel, sentada sobre um tronco de árvore, sem emitir um som, olhando fixamente para a luz prateada da lua cheia. Ao percebê-la neste estado, o pai, achando que tinha sido enfeitiçada, chamou o pajé. Este falou:
- Nheambiú perdeu os movimentos e a fala para sempre. Só uma grande dor a reanimará.
Com isso, todos se reuniram ao redor da índia e passaram a anunciar a morte de várias pessoas amigas, inclusive dos próprios irmãos que ela tanto amava. Nada a fazia se mexer. Foi aí que o pajé adiantou-se e, pausadamente, disse:
- Cuiambé acaba de ser morto!
Imediatamente o corpo da moça se agitou num estremecimento sem igual. De sua boca saíram tristíssimos lamentos. Em seguida desapareceu por completo na mata, a voar errante pelas ramagens.
A jovem não precisava mais de sua beleza. Virou um ser triste e feio, destinado a empoleirar-se na ponta de um galho morto como suas esperanças. Dali, olhando para a lua cheia, passaria todo o seu tempo a cantar com tristeza as desventuras de seu amor. Já não era mais a índia Nheambiú. Havia se transformado no triste Urutau.