10 de julho de 2026

Câmara blinda vereadores para fugir de críticas


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PROIBIÇÕES - O presidente Joaquim Ribeiro adotou as novas regras da Câmara

A Câmara Municipal de Franca deflagrou, ontem, mais um movimento destinado a blindar os vereadores das críticas que vêm recebendo nos últimos meses. Em vez de rever ou de assumir a responsabilidade pelas decisões que tomam, preferiram restringir o acesso da imprensa. A presença de repórteres está proibida no plenário. Para entrarem no setor administrativo, jornalistas terão que se identificar e fornecer dados pessoais. Servidores da Câmara estão impedidos de liberar qualquer informação a respeito de assuntos internos.


Arquitetado pelos vereadores em uma reunião a portas fechadas no gabinete da presidência ontem de manhã, o pacote de proibições é um desdobramento do episódio referente à publicação do decreto, dia 27 de abril, que quebrava as sessões em dois períodos. Naquele dia, somente Graciela Ambrósio (PP) e os repórteres chegaram à Câmara às 9 horas, horário em que a reunião deveria começar.


Na teoria dos parlamentares que perderam a hora, Graciela teria recebido informações privilegiadas do diretor administrativo, Afonso Teodoro Souza Filho, de que o decreto seria publicado naquele dia. Com isto, alegam, ela foi a única a chegar no novo horário, expondo-os ao ridículo perante a imprensa e a opinião pública. Afonso teve as ligações telefônicas rastreadas e o computador apreendido pela Corregedoria. A finalidade é apurar se ele manteve contatos com jornalistas.


Na sessão de ontem, os vereadores aprovaram, em regime de urgência, dois projetos de autoria coletiva que têm relação direta com o episódio. O primeiro trata de uma reforma interna em que o diretor - que tinha acesso a toda a documentação que entrava e saia da Câmara - passa a ter a atuação limitada a serviços burocráticos. O segundo estabelece que apenas vereadores e advogados que prestam assessoria à Mesa Diretora podem entrar no plenário. Não será mais permitida a presença de assessores, servidores e de “terceiros”, no caso, repórteres.


Levada à votação, a proposta recebeu 12 votos favoráveis. Graciela, Laércinho (PP) e Marcelo Valim (PSDB) votaram contra. A lei começa a vigorar na próxima sessão. Desde a última segunda-feira, repórteres já são obrigados a deixar endereço, telefone e a fornecer o número do RG para entrar nas dependências internas. “A Câmara tem que se moralizar corrigindo aquilo que está errado. Não concordo com a ideia de colocar mordaça na imprensa. Há coisas mais importantes para se preocupar. Assim fica parecendo que estamos querendo esconder algo”, disse Valim.


Graciela Ambrósio foi ainda mais contundente nas críticas e disparou contra os colegas de plenário. “Todos se uniram e deram um golpe baixo para me atingir, mas não vão conseguir. Só pode ser, como eu afirmo, uma Câmara muito frouxa. Se eu tivesse medo, não teria a função que tenho. É um absurdo, uma vergonha, querer cercear o trabalho da imprensa. São os próprios vereadores que denigrem a imagem da Câmara”.


O presidente da Câmara, Joaquim Pereira Ribeiro (PSB), alegou que as medidas não são uma restrição ao trabalho da imprensa. Tentou justificar dizendo que, na sede do GCN Comunicação, todas as pessoas também precisam se identificar. “Não existe nenhuma proibição. Desde quando assumi, solicitei aos senhores repórteres que não fizessem entrevistas durante os trabalhos. É isto que proponho e vou dar continuidade. Quando quiserem entrevistar alguém, certamente poderão fazer na sala ao lado ou na sala de imprensa”.


DESCRÉDITO
Para o jornalista Corrêa Neves Júnior, diretor-executivo do GCN Comunicação, ao restringir o trabalho da imprensa, o Poder Legislativo dá mais um triste passo rumo ao descrédito e a perda de representatividade. “A Câmara age como o paciente que, inconformado com o diagnóstico da doença, prefere ignorar o tratamento, fingir que não tem problema nenhum e agredir o médico”. Corrêa Júnior completou dizendo que os veículos de comunicação apenas registram o que acontece. “Os protagonistas dos atos são os vereadores. Atacar a imprensa, servidores ou quem quer que seja, só piora o quadro”. Para ele, é legítimo que a Câmara estabeleça um mecanismo de controle, mas cercear acesso da imprensa é inadmissível.


O projeto aprovado ontem estabelece que a relação com a imprensa será atividade exclusiva da Assessoria de Comunicação, sendo vedada a qualquer outro servidor, “sob pena de cometimento de falta grave”, liberar qualquer informação a respeito de assuntos refe- rentes ao Poder Legislativo.