Existe por aí uma parafernália completa para ativar o cérebro das pessoas. Pelo menos na propaganda, não faltam promessas para a melhoria do desempenho intelectual. Melhor ainda. Tudo em curtíssimo prazo. Basta fazer o depósito bancário em nome da empresa ou pagar o boleto e a lição primeira chega dentro de uma semana ou menos até.
Estudos na área de neurolinguística comprovam que o velho, bom e proveitoso ato de ler ativa as células cerebrais. A leitura por si só já exercita a memória. Além disso, as análises concluíram que os métodos empregados por esses cursos afins são inócuos. Os pífios progressos advêm exatamente do fato de que a pessoa precisa ler para acompanhar as lições.
Diante disso, fica a constatação de que toda a literatura de autoajuda existente no mercado atingiria o objetivo, se fosse capaz de disseminar o hábito de ler.
Mas a realidade é bem outra, porque ao concluir tais lições a pessoa não lê mais, voltando então à estaca zero. Ou seja, só se sente bem psicologicamente enquanto está lendo. Depois, sem estímulos, o cérebro deixa de responder prontamente às solicitações.
Na outra ponta da leitura encontra-se a tabulação da última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que comprova a alarmante porcentagem de 70% da população atingida pelo analfabetismo funcional.
Isso não quer dizer que esse contingente simplesmente seja incapaz de ler ou escrever. Mas apenas consegue decifrar uma tabuleta contendo uma ou duas palavras. Só entende uma frase simples, sem inversão da ordem direta. Frente a um período composto por subordinação não compreende nada.
Quanto à escrita, o caos não tem tamanho. A pessoa começa por iniciar a frase com letra minúscula, passa pelos erros mais elementares de grafia, como troca letras ou deixar de empregar a acentuação adequada das palavras. O resultado no papel ou na tela do monitor não tem coesão ou coerência.
O analfabeto funcional está por toda parte. Não se trata de fenômeno apenas brasileiro. Até países mais desenvolvidos apresentam estimativas altíssimas de pessoas incapazes de interpretar aquilo que lê.
Essa população vendada pela palavra escrita se compõe de gente que foi à escola, sabe ler, contar e escrever (sem nexo, claro!). Mais ainda, há quem ocupe até cargos administrativos. Mesmo assim, não consegue compreender o mais simples texto escrito.
A continuar nesta linha, a sociedade pode voltar à era pré-gutemberguiana (Gutemberg inventou a impressão gráfica). Muitos não entendem a leitura de um manual de procedimento. Para aprender uma nova tarefa dependem de que alguém lhes diga como fazer. Não são capazes de ler e entender.
O (e)leitor analfabeto funcional tem a mais alta estima dos políticos. Seu cérebro age mais pelo que ouve ou vê, em forma de figura. No dia da eleição, quando aparecer a foto sorridente na tela da urna eletrônica, basta apertar a tecla verde para validar o voto.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br