09 de julho de 2026

Relações promíscuas


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As gravações divulgadas anteontem pelo jornal ‘O Estado de São Paulo’ ligando o secretário nacional de Justiça (e presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria), Romeu Tuma Júnior, ao contrabandista Li Kwok Kwen — o Paulo Li, apontado como chefe da máfia chinesa no Brasil —, expõem mais uma vez as relações perigosas que envolvem autoridades públicas e entidades criminosas no Brasil. Causa mais estranheza ainda que os telefonemas entre o delegado e o contrabandista, considerados legítimos, não tenham sido levados em conta. O delegado se cala, o contrabandista encontra-se preso, sem poder falar a respeito, e o governo busca uma forma de contornar o problema.


Estivéssemos em outro país, que leva a sério a obrigatoriedade das autoridades públicas, eleitas ou indicadas, agirem com lisura em suas funções, dificilmente Tuma Júnior teria sido empossado nos dois cargos que ocupa hoje. A seu favor, apenas o fato de ser filho do senador Romeu Tuma (PTB). E a indicação cumpriu uma exigência do partido para integrar a base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-ministro da Justiça, Tarso Genro (atualmente fazendo pré-campanha pelo governo do Rio Grande do Sul), disse que foi informado pelo próprio delegado das investigações em curso na Polícia Federal.


Mesmo assim, Tuma Júnior foi posteriormente ungido como presidente do órgão responsável pelo combate à pirataria, justamente um dos braços dos negócios escusos de Paulo Li, responsável pelo derrame de milhares de produtos piratas e falsificados no mercado brasileiro. Mesmo com a sua prisão, as atividades de suas empresas de fachada ainda dão trabalho para a PF e para a Receita Federal. Este é o último exemplo da promiscuidade entranhada na administração pública brasileira, onde o Secretário Nacional de Justiça troca telefonemas amistosos (chegando a encomendar produtos contrabandeados) com aquele que deveria manter trancafiado.


Os exemplos desta relação espúria são abundantes na história recente do Brasil. E, na maioria das vezes, ninguém é julgado ou condenado por isso. Desta forma, tem-se a impressão de que o dinheiro do contribuinte continua sendo usado para encher os bolsos de corruptos, alimentar criminosos e manter verdadeiros bandidos fora da cadeia. Qualquer cidadão cioso de seus direitos e deveres arma-se de indignação diante de fatos como este, que vem tomando conta dos noticiários nos últimos dias.


Afinal, a lei existe para ser acatada. E ainda mais: autoridades estão aí para fazê-la ser cumprida. Um desvio, ainda que pequeno, deve ser exemplarmente punido. Quando nada acontece (e as declarações dos últimos dias estão levando ao caminho da pizza, tão apreciada nos escaninhos da política nacional), o cidadão fica com a sensação de que ainda falta muito para que as autoridades brasileiras comecem a agir em benefício do bem de todos, jogando (injustamente) todos num só caldeirão.