Um dos fundadores da Banda Index e co-promotor da festa Nó na Madeira, o músico André Canto, conhecido por Banzé, ocupa hoje o cargo de diretor geral da Rádio Unifran FM (101,3) onde apresenta os programas dominicais Nó na Madeira (das 13 às 14 horas), com o pop rock nacional dos anos 80 e Cavern Club (das 12 às 13 horas), totalmente dedicado à música dos Beatles e que tem chamado a atenção especialmente pela propriedade com que comenta as fases e músicas dos Beatles, essa banda ícone da cultura pop. “O Cavern Club começou sendo apresentado pelo Maury Gatti e pelo Osni Renato. Com a saída do Maury, assumi o programa. Os Beatles sempre foram minha paixão”, conta.
Nascido no Rio de Janeiro, André Canto começou sua trajetória na música com a formação em flauta doce no Colégio Salesiano. Mas foi com a bateria e com os vocais que se iniciou nas apresentações ao público. “Quando cheguei em Franca, em 1988, me apaixonei pelo Nó na Madeira. Um barzinho onde bandas de rock se apresentavam era uma peculiaridade que eu não conhecia no Rio de Janeiro. Ainda hoje é difícil encontrar ambientes assim no Rio. Casas de shows sim, existem muitas, onde as bandas se apresentam. Nesse mesmo ano fundamos a Banda Index”, lembra ele.
Na entrevista abaixo, enfocando o programa que apresenta os Beatles à nova geração, Canto dá ideia da inesgotabilidade que é o tema do quarteto de músicos britânicos que revolucionaram a cultura contemporânea. Fala sobre o álbum histórico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, conceitual e experimentalista em que os jovens de Liverpool criaram heterônimos tanto para a banda quanto para si próprios. Conta de seu contato com Lizzie Bravo, a única brasileira a ter gravado com a banda e entre outras novidades mostra, enfim, que o “universo Beatle” ainda fervilha.
CF - O ouvinte do Cavern Club percebe claramente o seu conhecimento acerca de toda a trajetória dos Beatles. Como é isso?
André - Eu pesquiso muito. A internet é uma ferramenta valiosa para essa pesquisa. Participo de várias comunidades dedicadas aos Beatles, o que me dá muita informação a respeito. Outro dia conheci, pelo Orkut, Lizzie Bravo, que foi a única cantora brasileira que gravou com os Beatles. Ela fez o coral de Across the Universe, em 1968. Estou em contato com ela, tentando entrevistá-la.
CF - De roadie a cantora?
André - Ela era fã dos Beatles na época e foi para Londres para tietar mesmo na porta da Apple ou dos estúdios Abbey Road. Numa dessas ocasiões, o grupo precisava de vozes femininas para a gravação, então o Paul McCartney saiu ao saguão e perguntou para as fãs se alguém sabia cantar. A Lizzie levantou o dedo e pegou uma amiga que nem sabia cantar e disse “vem cá que eu ensino” e foram gravar a música.
CF - É curioso que embora tenham surgido há 40 anos e que dois dos seus membros já tenham falecido, a fonte de novidades sobre o grupo pareça inesgotável...
André - Fico impressionado em constatar, ao apresentar os programas Nó na Madeira e o Cavern Club, que dos anos 80 não tenho notícias para dar. Já em relação aos Beatles, praticamente todas as semanas tenho notícias sobre eles. No programa de domingo passado, por exemplo, noticiei que uma atriz argentina revelou que teria tido um romance com Paul MacCartney. Semana passada encontraram uma garrafa em que o John Lennon teria guardado LSD. Há sempre algo acontecendo no “universo Beatle”, como eu falo no programa.
CF - Isso sem falar na iconografia, nos locais por onde passaram e que foram praticamente sacralizados...
André - Em Liverpool, que é a cidade natal dos Beatles há vários eventos. Há o museu dos Beatles, o Cavern Club, que foi o clube onde eles começaram a tocar. Hoje mudaram o local, mas o reconstruíram com os mesmos tijolos da demolição do antigo, onde várias bandas cover dos Beatles se apresentam.
CF - Em que aspectos os Beatles influenciaram a sua musicalidade?
André - Em tudo. E sem demagogia, creio que ainda influenciam tudo o que ouvimos na música pop hoje em dia. Os Beatles apresentaram o primeiro videoclipe gravado. As distorções, a forma diferenciada de colocar metais, agregar uma orquestra de câmara ao rock, todas essas novidades vieram com os Beatles. Claro que não foram os criadores do rock, se pegarmos o rock de Elvis Presley e de Chuck Berry, temos uma outra coisa. Mas a esses precursores os Beatles agregaram elementos novos e muitas vezes decisivos. Incorporaram ao rock aquelas pitadas de jazz e blues. No rock nacional contemporâneo tudo tem influência dos Beatles.
CF - O Brian Epstein foi o cara que descobriu os Beatles e os moldou?
André - Os Beatles eram até a chegada de Epstein, uma banda de teddy boys, rebeldes que usavam jaquetas de couro, brilhantina no cabelo. Vieram de uma classe operária. Não eram rebeldes sem causa. Eram brigões e tinham em comum a paixão pela música. O Brian Epstein não se apaixonou pela imagem dos rapazes, mas pela música e enxergou ali a possibilidade de recriá-los, sim, moldá-los. O Epstein cumpria ali a figura do pai, daquele a quem os Beatles tinham que obedecer. Parece claro que com a sua morte em 1967 inicia-se o processo de separação da banda. O Paul McCartney tentou ocupar esse lugar, sem sucesso, porém.
CF - O que você diz do impacto de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band?
André - Esse disco foi citado como o maior disco de todos os tempos e revolucionário por ter sido o primeiro álbum conceitual da história da música, em que o quarteto se apresentava como se fosse uma outra banda, exatamente a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. A revolução era tamanha, que os estúdios de gravação não comportavam, em quatro canais, as criações sonoras do grupo.
CF - E o papel da Yoko Ono no final da banda?
André - Vejo que o fim dos Beatles realmente começa com a morte de Brian Epstein. E Yoko teve sim um papel de desgaste na relação do grupo, mas não vejo que tenha sido determinante. Acontece que em sua paixão por Lennon ela parecia o querer só para si. E os Beatles, desde o início, eram um clube. Eram muito jovens...
CF - Por sua história pessoal, por seu carisma, por seu ativismo político e até mesmo pela tragicidade de sua morte, John Lennon ficou imortalizado como grande símbolo de uma cultura, emblemático inclusive como líder dos Beatles. Qual dos quatro foi, na sua concepção, o grande Beatle?
André - Paul McCartney sempre pareceu apático, como aquele que só pensava na música, sem envolvimento político. O meu preferido, pela musicalidade mesmo, é o Paul McCartney. Acho que foi a cabeça musical dos Beatles. Mas é indiscutível que os quatro se completavam.