08 de julho de 2026

Nascentes dos sentidos


| Tempo de leitura: 3 min
Sonia Godoy é psicóloga

Sonia Godoy
Especial para o Comércio


Seja através da mitologia, seja por meio da filosofia grega, temos notícia de que há séculos o homem procura compreensão para suas paixões. Platão, Aristóteles e outros filósofos deixaram marcas de suas idéias sobre a importância do homem dominar, sustentar ou até mesmo extirpar ou negar suas paixões. Alertado para contrapor às tentações advindas delas o uso da razão, vista como benéfica, o homem inadvertidamente converte a paixão em suspeita e perigosa. A cólera, o desejo, o medo, o amor, a amizade, o ciúme, a inveja, e até mesmo a coragem, são manifestações de nossa paixão. Cabem portanto perguntas: que sentidos evoca a palavra paixão? De onde vêm as paixões? Precisamos controlá-las? Sair da sujeição ao que é do pathos (palavra grega que dá origem ao que é passional, mas também ao que é patológico) e nos tornarmos apáticos?


A Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto realizará de 13 a 16 de maio encontro entre psicanalistas e profissionais de diferentes setores do saber e da cultura, para sondar as formas assumidas pelas paixões humanas ao longo do existir. A II Bienal de Psicanálise e Cultura, que acontecerá no Centro de Convenções de Ribeirão Preto, terá como titulo Paixão e... Paixões: viagem às nascentes dos sentidos. Este encontro, que se prenuncia criativamente perturbador e instigante, contará com a presença de vários pensadores e artistas a nos envolverem com seus questionamentos e reflexões. As paixões permitem e auxiliam, adiam e até mesmo impedem que se desenvolvam formas criativas e expressivas de existir.


Revelar à consciência a presença de “paixões claras”, como o amor e a amizade, ou as “obscuras”, como a inveja, o ciúme, a vingança, promove o reencontro com o humano em nós.


Freud, o criador da Psicanálise, além de cientista, era um apaixonado explorador do mundo das artes, em especial da literatura e da mitologia. Ele apresenta em seus textos teóricos e ensaios, inúmeras citações de lá extraídas, e reconhecida inspiração para sua metapsicologia. O Rei Édipo, de Sófocles (427 a.C), é um bom exemplo, pois foi deste texto que se originou a teoria sobre o complexo de Édipo. Freud recorria com frequência aos seus escritores favoritos, em especial Goethe, Schiller e Shakespeare. Arthur Schnitzler, poeta, contista, dramaturgo, ensaísta e também médico, foi considerado pelo próprio Freud seu “duplo”.


Autor entre outros de Crônica de Uma Vida de Mulher e Breve Romance de Sonho, que deu origem ao filme De Olhos Bem Fechados, Schnitzler fazia parte da burguesia intelectual vienense. Em carta a ele Freud confessou que o considerava também um “explorador das profundezas do inconsciente”, pois sob a superfície poética percebia que ele trazia “as verdades do inconsciente e desmontava as convenções sociais”. Para Schnitzler, ambos “olhavam através da janela da alma, cada um à sua maneira, em busca da verdade escondida, para revelá-la.”


Expressamos nossa criatividade como nos é possível, dependentes que somos da presença ou ausência da paixão. Uns a exprimem através da dança, outros da fala, da escrita, da representação, do canto, da pintura, ou do futebol. Como dizia Hegel, “nada de grande se fez sem paixão”.


Em busca de compreensão para com as paixões do homem atual, a proposta da II Bienal é originar um olhar mais atento e profundo às sutilezas das paixões que uma obra de arte tanto exige, para que seu fruir possa ser fecundo, tanto quanto o ser que a produz: o homem. O prazer suscitado pelo encontro com uma expressão artística, qualquer que ela seja, desencadeia emoções despertadas pelos encontros apaixonados que experimentamos em nossos inícios de vida. A memória de nossas paixões promove a procura de repetição de semelhantes sentimentos sempre presentes nas nascentes de nossas paixões.