Cláudio César de Souza
Da APJ especial para o Comércio
Em seu primeiro teste nas urnas, a pré-candidata do PT à presidência da República, Dilma Rousseff, 62 anos, avalia que seu maior desafio durante a campanha eleitoral será se tornar mais conhecida do povo brasileiro para vencer a disputa com o ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), pelo Palácio do Planalto no pleito de 3 de outubro.
A exemplo da estratégia utilizada pelo presidente Lula (PT) em 2006 contra o então candidato do PSDB Geraldo Alckmin, a ex-ministra-chefe da Casa Civil pretende colar em seu adversário tucano a imagem de privatista. ‘Ser conhecida do povo brasileiro é, sobretudo, dizer quem eu sou e o que eu não faço de jeito nenhum. Por exemplo, não entrego meu país, não vendo nem riqueza natural nem tampouco empresa e patrimônio público e não vou deixar de combater a inflação’, afirmou Dilma, em entrevista exclusiva concedida à APJ (Associação Paulista de Jornais), rede que integra os 14 principais jornais do interior de São Paulo.
A petista defende não apenas a comparação entre os oito anos de governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e as duas administrações do presidente Lula (PT), mas desafia Serra a comparar suas biografias. ‘A diferença é esta: quem promete e quem faz. Nós fizemos muito, mas temos certeza de que podemos fazer muito mais. Eles (PSDB) têm que mostrar porque podem fazer mais. Então, é comparar o que eles fizeram e o que nós fizemos. Vamos provar para o povo que é através dele que vamos avançar para o rumo certo.’
Na entrevista concedida na mansão de Brasília onde mantém seu staff de pré-campanha, Dilma rebateu as críticas do PSDB de que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) - principal vitrine do governo Lula - não saiu do papel e não poupou elogios ao presidente da Câmara Federal, Michel Temer (PMDB), apontado como potencial vice na chapa que ela encabeçará. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Comércio da Franca - Como tem sido a rotina de atividades da senhora nestas três primeiras semanas após deixar a Casa Civil e iniciar a pré-campanha à Presidência da República?
Dilma Rousseff - Nestas três semanas, fiz atividades suprapartidárias e multipartidárias em recintos fechados e também fui às ruas. Conversei com partidos favoráveis à minha candidatura, que será oficializada em julho, com empresários e várias vezes com pessoas do povo. Também participei de atividades das centrais sindicais e de movimentos sociais. Fiquei muito honrada pelo fato de todas as centrais sindicais declararem apoio à minha pré-candidatura. Nosso governo teve uma grande força também junto ao empresariado e percebi isso em visita recente ao Rio Grande do Sul.
Comércio - Como foi a receptividade à senhora nas ruas?
Dilma - Eu tenho aquela escola do presidente Lula, de conversar com o povo. Eu não fujo do povo. Abraço, tiro retrato, torno a abraçar, converso, escuto, torno a abraçar e torno a beijar. É um contato físico e pessoal de apalpar. A minha escola, por exemplo, é diferente da do ex-governador Serra. A minha escola tem nome e se chama Lula. A gente dá um valor enorme ao povo, à conversa com o povo e ao olho no olho. Eu viajei com o presidente Lula de ponta a ponta deste país. É isto que considero que é a diferença fundamental. Temos essa relação com o povo e somos um deles. Não somos estranhos ao povo. Tem uma prioridade no governo Lula e que todos aprendemos que é um olhar e uma postura social.
Comércio - A senhora já se sente conhecida pelo povo brasileiro?
Dilma - Eu me sinto um pouco conhecida, mas é evidente que não tenho hoje o conhecimento que vou ter no final da campanha. Hoje já sou bastante conhecida, mas ainda não o suficiente. Acho que o meu objetivo quando começar a campanha é ser conhecida, de modo que as pessoas saibam quem eu sou e o que eu represento. Nem todo mundo sabe que eu represento a continuidade aos governos Lula e esse é um problema que teremos que enfrentar, esclarecendo a população. Ser conhecida do povo brasileiro é, sobretudo, dizer quem eu sou e o que eu não faço de jeito nenhum. Por exemplo, não entrego meu país, não vendo nem riqueza natural nem tampouco empresa e patrimônio público e não vou deixar de combater a inflação.
Comércio - Que comparação a senhora acha que o eleitor deve fazer entre os governos do PSDB e do PT?
Dilma - O presidente Lula e eu temos um projeto, que é diferente do anterior. Não tiro os méritos democráticos do Brasil nos governos do Fernando Henrique (Cardoso, do PSDB), mas eles estagnaram a economia, não distribuíram renda e não criaram mecanismos para que o país crescesse. Nós mudamos isso. Criamos novos instrumentos para o Brasil crescer e aí entendemos porque geramos 12,4 milhões de empregos e vamos gerar mais ainda até o final do governo. Então, é um outro Brasil e é só comparar o que era em 2002 e o que é agora em 2010. Agora é um povo auto-confiante, é um povo orgulhoso de ser brasileiro, é por isso que nós podemos avançar ainda mais. Eu participei da construção deste alicerce, que vai precisar que coloquemos muito mais tijolos e pedras, que são os programas de renda, de desenvolvimento produtivo e de financiamento.
Comércio - O PSDB e os partidos da oposição já deixaram clara a estratégia que vão usar na campanha eleitoral: não vão comparar governo, mas sim a senhora e o pré-candidato José Serra, enfatizando a experiência administrativa. A senhora teme este tipo de comparação?
Dilma - Pelo contrário, eu adoro. Porque o Serra foi ministro da Saúde e do Planejamento e eu fui ministra das Minas e Energia e ministra-chefe da Casa Civil, dirigindo todos os segmentos do governo federal como auxiliar direta, braço direito e braço esquerdo do presidente Lula. Em cada pedaço deste governo, tenho o orgulho de dizer que tem um pedaço de mim. A minha biografia me orgulha. Participei da resistência à ditadura, das formas que minha geração encontrou para participar. Além disso, acho que é uma vantagem não ter fugido da luta contra a ditadura. Tenho muito orgulho de ter feito isso. Temos que comparar também o desempenho nas crises econômicas. Eles (PSDB) deixaram o Brasil quebrar várias vezes e ainda diziam que a única coisa que nós sabemos fazer é surfar na onda do crescimento da economia internacional e que, se enfrentássemos uma crise, não saberíamos como nos comportar. Veio uma crise muito maior que as quatro crises que eles enfrentaram, a maior desde 1929, e o Brasil deu exemplo para o mundo. Então, tudo isso nos leva a dizer uma coisa que acho forte. Nós não estamos prometendo, nós fizemos. A diferença é essa: quem promete e quem faz. Nós fizemos muito, mas temos certeza de que podemos fazer muito mais. Eles têm que mostrar porque podem fazer mais. Então, é comparar o que eles fizeram e o que nós fizemos. Vamos provar para o povo que é através dele que vamos avançar para o rumo certo. Eu acho que o rumo certo é o caminho que o Lula abriu. Você não vai acreditar que eles são herdeiros do Lula, vai? Eles passaram sete anos e meio falando mal do Lula e do governo todos os dias. Nós, a duras penas e trabalhando dia e noite, conseguimos colocar o Brasil no rumo certo e aí chega na hora da eleição e eles vêm dizer que são sucessores do nosso governo? Não podemos aceitar isso. Eles são sucessores do governo deles. Do nosso não. Isso cheira a lobo em pele de cordeiro, mas não acredito que o povo se deixará enganar de forma tão primária.
Comércio - Como o PMDB é o principal aliado da senhora, a tendência é de que indique o vice. Com a permanência do Henrique Meirelles na presidência do Banco Central, há uma tendência quase natural de que o vice na chapa da senhora seja o presidente da Câmara Federal, Michel Temer. Quais serão os critérios para definição do vice e quando será tomada esta decisão?
Dilma - Ainda não definimos o vice, mas nossa decisão política é de fato fazer uma aliança com o PMDB. Uma aliança com um programa muito claro, o que não é muito difícil porque eles participaram sempre do governo do presidente Lula e agora no segundo mandato de uma forma muito expressiva. Então, acho que caminhamos para uma conjunção de programas fortes. Acredito que o nome que será indicado para vice é uma questão que cabe ao PMDB e é uma interface conosco no sentido de a gente construir uma chapa harmônica. Se você perguntar a minha opinião, sem querer induzir, acho que o deputado Michel Temer é um nome muito bom. É um homem com tradição, é o presidente da Câmara dos Deputados, é uma pessoa séria, respeitada e que tem compromisso com o Brasil. Então, eu tenho a melhor impressão do deputado Michel Temer. Agora, não serei eu a escolher porque o PMDB vai submeter o nome ou os nomes a nós.
Comércio - A senhora é considerada pelo presidente Lula como a mãe do PAC. A senhora acredita que os resultados tímidos do programa até o momento podem arranhar a sua imagem de gerente e tocadora de projetos?
Dilma - Recebemos este governo sem nenhum projeto executivo, básico ou licenciamento. Não tinha nenhum planejamento. Nosso primeiro mérito foi colocar no papel. Porque se você não faz projeto básico, você não pode licitar uma obra. Se você não faz projeto executivo, você não pode construir. Se você não tira o licenciamento nem faz o EIA-Rima, você não tem direito de iniciar a obra porque você não tem autorização do meio ambiente. O primeiro grande esforço nosso foi colocar no papel e está tudo lá. O segundo esforço foi executar porque foi desmontada a máquina de fiscalização e execução do país. Conseguimos, dos R$ 656 bilhões, realizar R$ 400 bilhões já. Agora irá acelerar cada vez mais. Você não ouvia falar que a interligação do São Francisco não existia? Agora, ninguém fala que não existe. Não diziam que a Transnordestina não sairia do papel? Agora, temos 10 mil operários trabalhando na obra nas proximidades de Salgueiros. Por que isso? Porque também saiu do papel e a desapropriação foi feita. O pessoal só conta como obra o tijolo empilhado. Não conta como obra ter que desapropriar, ter que retirar e ter que colocar. Ninguém toca no assunto que ajudamos a executar o Rodoanel de São Paulo, colocando R$ 1,2 bilhão lá. Se o PAC é uma lista de obras, por que o Rodoanel não foi incluído? Por que foi viabilizado o tratamento fundamental das represas de Billings e Guarapiranga, também em São Paulo? Porque colocamos recursos nas duas represas para poder sair. Investimos nas favelas de Heliópolis e Paraisópolis, também em São Paulo. Então, como não existe o PAC? Pergunta aos prefeitos e governadores PSDB e do DEM de onde vem o dinheiro que eles recebem. Vem desta coisa que eles dizem que não existe chamada PAC? Não, vem desse imenso esforço que temos feito para viabilizar e executar o PAC.
Comércio - O PAC 2 prevê novos investimentos no Vale do Paraíba e nas cidades do interior de São Paulo? O que a senhora pretende apresentar de obras e investimentos para o Vale e para as cidades de São Paulo durante a campanha?
Dilma - O conselho que dou aos prefeitos é de que fiquem atentos para apresentar projetos na área de saneamento e habitação, como o Minha Casa, Minha Vida. Também têm que estar atentos para projetos de drenagem e para as creches. Vamos fazer 1.200 creches por ano. Têm que estar atentos para as chamadas praças do PAC e para cobertura dos campos de futebol e de quadras.