Quarenta dias após a morte que intrigou a população e desafiou as autoridades, a Polícia Civil de Franca finalizou as investigações e concluiu que a vendedora Kelly Mara Mehl, 24, suicidou-se por enforcamento com suspensão incompleta dentro do apartamento em que morava no Parque dos Lima. A DIG (Delegacia de Investigações Gerais) descartou a hipótese de assassinato após colher uma dezena de depoimentos e confrontar as informações obtidas com o laudo elaborado pelo IC (Instituto de Criminalística). A perícia constatou que as lesões encontradas no pescoço da vítima são compatíveis com o brinco e o colar que ela usava.
Kelly foi encontrada morta na madrugada de 14 de março. O corpo estava suspenso próximo à janela do apartamento, com os joelhos dobrados e apoiado sobre as pernas. Ana Carolina Santos Paulino, 20, amiga da vendedora, dormia na cama ao lado. O delegado João Walter Tostes Garcia e o perito Lener Eustáquio Pereira constataram que a mulher teria cometido suicídio.
Após examinar o corpo com calma, Lener suspeitou de ferimentos no pescoço da vítima, que seriam incompatíveis com suicídio. No fim da tarde de domingo, o delegado Clóves Rodrigues da Costa, que havia assumido o plantão no lugar de João Walter, foi informado das impressões do perito e concluiu que estava diante de um homicídio. Ele mandou prender Ana Carolina. Ela obteve a liberdade provisória três dias depois. A garota sempre afirmou que era inocente.
O caso foi remetido à DIG e apurado pelas equipes dos delegados Daniel Radaelli e Márcio Murari. Ao longo do trabalho de investigação, a tese de homicídio foi descartada. "Ouvimos, formalmente, nove pessoas próximas à vítima, além de apurar outras informações. Levantamos fortes indícios de que se tratava, realmente, de um suicídio, o que veio a ser constatado pelo laudo", afirmou Murari.
Uma colega de trabalho de Kelly afirmou em depoimento à polícia que, dias antes de ser encontrada morta, a vítima ligou para ela e disse que "tinha um capetinha dizendo para ela se matar". Os policiais também constataram que a vendedora foi até a casa do ex-marido e subiu no muro na tentativa de vê-lo horas antes de se matar. Na cama de seu apartamento, foi encontrada uma foto do casal. O fim do relacionamento a teria deixado depressiva. "O laudo pericial, composto por dez páginas, detalha o tipo de brinco e colar que ela usava e que provocaram as lesões". A perícia não encontrou vestígios de luta corporal no quarto. O ferimento por unha no pescoço foi provocado após a morte.
SUMIÇO IMPORTANTE
Uma alteração no cadáver pode ter induzido a polícia a concluir, inicialmente, que se tratava de um assassinato. Fotos tiradas pela perícia na cena do crime mostram que Kelly usava as bijuterias, que ficaram comprimidas contra o seu pescoço e provocaram as lesões quando ela amarrou o jaleco ao pescoço e soltou o corpo. Durante a remoção do cadáver para o IML (Instituto Médico Legal), um funcionário da funerária de plantão retirou os brincos e o colar. Como o exame foi feito sem os acessórios e os peritos constataram que os ferimentos não eram típicos de suicídio, o homicídio ganhou força.
O delegado Clóves, que mandou prender Ana Carolina, disse não ter se precipitado e que tem a consciência profissional tranquila. "Formei minha convicção com critério. Se me deparasse, hoje com ocorrência idêntica, com mesmo cenário e informações técnicas que recebi na data dos fatos, a decisão seria a mesma. Durante a investigação, surgiram fatos novos que levaram a uma conclusão diversa daquela que me anteciparam".