08 de julho de 2026

Enfim, os sessenta!


| Tempo de leitura: 4 min

Um amigo meu, desses observadores em permanente estado de atenção, fez-me consideração muito proveitosa:
- Você já reparou que em tudo o que você escreve envolvendo a sua pessoa ou a sua cidade, sistematicamente você fala de tempo?
- Tenho que reconhecer que a passagem do tempo me seduz, porque me parece o grande referencial da vida. Perder a noção do tempo seria para mim como jogar fora o principal marco da existência explico-me.
- É. Mas em você transparece com muita evidência que você receia a passagem do tempo, não encara o fato com a naturalidade que ele merece...


- De que vale recear que o tempo passe? É bem possível que de um modo permanente eu sinta o seu fluir com tudo o que leva, com tudo o que priva, com tudo o que acarreta. Não gostaria de perder esta consciência do tempo. Acho mesmo que não me afastar desta categoria de preocupação é uma das mais requintadas provas da consciência de vida. Quero ter tempo e memória...


- Então, como fica nessa perspectiva de encarar a velhice?
- Você sabe que o conceito de velhice, além de pessoal, é ainda variável conforme o grau de cultura, de progresso e de idade que as outras pessoas tenham.
- Como assim?


- Veja esta mentirinha de Rui Barbosa: “Eu não me sinto velho, senão quando não tenho o que fazer. Em me sobrando tarefa, sempre me achei moço.” Algum contemporâneo seu compartilharia de semelhante e otimista forma de encarar a questão?
- Não, não seria possível.


- Olhe, neste mês eu completei sessenta anos de idade. Dois tios meus deixaram claro que tinham muita saudade dos sessenta anos de cada um. “Boa idade essa!”, resume um deles. “É, a gente nem sabia direito como era bom...”, completa outro. Diálogo estranhável esse de louvar a chegada de uma idade que para tantos é tida como de velhice assumida ou de perigosa proximidade dela. É que os dois já passaram de oitenta e cinco... Além disso, para eles, continuo o menino, o sobrinho que eles viram nascer, crescer. A meu favor, fica-lhes a amável ideia de que sou sempre muito moço, cheio de disposição, com tanta coisa pela frente. Quando meus netos chegarem (está demorando um pouquinho, minhas filhas!) como minhas filhas a cada dia deverão notar em mim algo resumível numa frase definitivamente pouco lisonjeira: “É, papai já não é o mesmo”...


Não adianta as estatísticas demonstrarem que a cada década as expectativas de vida aumentam muito no Brasil: para os muito moços e para as leis brasileiras, sessentão é velho. É só ler os classificados aqui do Comércio da Franca para sentir isso com regularidade de impressionar. Até trinta e cinco anos, sem problemas. Daí para mais, só por exceção. Algumas entidades criaram a tal “terceira idade”, uma espécie de eufemismo, de consolação aos que entraram na faixa dos sessenta. Eu considero que velho, mas velho mesmo, será quem alcançou os setenta e cinco.


- E você se considera como?
- Antes de responder direto, um pequeno episódio. Faz uma semana, minha esposa e eu fomos ver um filme no shopping. Compramos os dois ingressos, pagando preço total. Enquanto aguardávamos o início da sessão, ficamos ali pela sala de espera. Chamou-me a atenção a tabela de preços: “Idosos pagam meia entrada”. Pensei logo no conceito real de idoso, na faixa dos setenta e cinco. Fui perguntar à bilheteira em que etapa o sujeito merecia a meia entrada: “Depois dos sessenta”. Não tive outro modo de encarar aquela deliberação, senão comentando com minha mulher, dez anos mais nova que eu: “Viu? Hoje economizamos meia entrada!”


- Volto à pergunta: você se considera como?
- Já me tive por mais velho, percebendo que, dia após dia, ia me introduzindo uma espécie de aceitação de ao menos meia aposentadoria. No momento, minha carga de trabalho e de responsabilidades aumentou tanto que perdi a sensação de aposentado e, com isso, a própria ideia de velhice recuou consideravelmente. É isto: quanto mais útil e capaz, física e mentalmente, você for, menos velho você será. É como eu me considero.


- Não desconverse. Com sessenta anos, você é velho ou não?
- Poderia responder citando alguns clássicos...
- Ih, lá vem Machado de Assis...


- Então vou à Bíblia, a primeira e mais bem sucedida obra coletiva: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar”... (Eclesiastes)
- Ufa! Chega de falar de tempo.


- Copiar pensamentos alheios é fácil e logo toma a página toda. Mas fico com uma última frase que liga tempo, eternidade e a própria necessidade de Deus: “Todos sabemos que alguma coisa é eterna. Não os nomes nem as casas, sequer as estrelas... Todo mundo sabe, em seu íntimo, que algo é eterno, e que esse algo nos diz respeito”. (Thornton Wilder, escritor clássico da literatura norte americana, falecido em 1975).


E com essa, vou ficando por aqui. Enquanto é tempo.

 

Everton de Paula
Professor, escritor, conferencista. Fundador e membro da Academia Francana de Letras