09 de julho de 2026

Minha primeira vez em Brasília


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Brasília, a capital da esperança, completou 50 anos. Pena que uma data importante para a autoestima dos brasileiros seja ofuscada pelo escândalo da corrupção do DEM, o grande aliado de José Serra. O projeto de Lúcio Costa e os prédios de Oscar Niemeyer tornaram a cidade modernista um experimento único, Patrimônio da Humanidade.


A primeira coisa que lembro da cidade é uma foto em preto e branco que meu pai trouxe, ele foi lá conhecê-la ainda em construção. A revista Cruzeiro também mostrava, semanalmente, o andamento das obras, a fé do mineiro JK no futuro do país, na construção de um Brasil moderno. Nada disso deu muito certo. Mas a cidade ficou, com sua beleza estonteante.


Minha primeira vez em Brasília foi uma aventura. O ano era 1972. Um colega da faculdade de arquitetura tinha ligação com uns milicos da FAB. Descobriu que o Correio Aéreo Nacional aceitava levar estudantes de carona, em plena ditadura militar. Fez uma lista de interessados na classe e, numa tarde ensolarada, com céu de brigadeiro, fomos para Congonhas. Subimos no velho avião e viajamos sentados naqueles bancos de paraquedistas em meio a malotes de correspondência, tocando violão e cantando, enquanto as meninas tiveram o privilégio de viajar na cabine com os pilotos. Uma festa no ar.


Minha maior surpresa foi quando tive coragem de olhar para baixo e vi uma cidade entre as nuvens. Um cemitério, depois uma praça, depois uma grande igreja e outra praça. Era Franca, estávamos exatamente sobre a cidade, fiquei extasiado com aquela visão inesperada.


Em Brasília, nosso colega arrumou-nos o anexo do hotel Nacional, um albergue que ficava no meio do nada, próximo ao Palácio da Alvorada. Dali, fomos para o Plano Piloto e até a UnB procurar o Fernando Latorraca, uma amigo que estudava geologia, que nos levou para comer no “bandejão” da universidade. Andamos pela esplanada dos Ministérios e voltamos para dormir no anexo, em pequenos quartos com beliches e banho frio, mas era tudo maravilhoso naquela idade. Cansado, dormi como uma pedra.


Fui acordado no meio da noite pelos colegas, estávamos sendo expulsos do lugar porque o William, um dos colegas, tinha arrumado uma namorada e levado ela para o quarto. O zelador sacana, ao invés de impedir sua entrada, disse que era proibido e não quis saber, colocou todo mundo na rua de madrugada, inclusive as meninas. Ficamos todos na estrada, no meio do nada com as mochilas na mão, a pé e sem telefone. Às quatro da madrugada, passou um táxi, que levou as meninas para a rodoviária, que enviaram outros para buscar todos. Sem dinheiro para hotel, a maioria, como eu, preferiu comprar uma passagem de ônibus de volta para São Paulo, dezoito horas de viagem. Dezoito horas xingando o William, que era rico e ficou por lá até a coisa acalmar. Fui conhecer Brasília melhor anos depois, mas essa é outra história.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor