O ano era de 1970. O lugar a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Franca que funcionava no antigo Colégio Nossa Senhora de Lourdes, depois o prédio da UNESP. A turma era a de Letras, que se formaria naquele ano. O diretor, o Dr. Alfredo Palermo.
Fazia eu parte desse grupo. Todos nós com 20 e 21 anos de idade, habitados ainda por aquela alegria descomprometida e a certeza de que o mundo apenas nos esperava para realizar nossos sonhos. Éramos uma turma bem estudiosa, elogiada por vários professores, mas tínhamos uma necessidade da qual não abríamos mão: gostávamos de nos divertir na escola, adorávamos rir. Rir juntos era nossa meta e, para isso criávamos as condições mais improváveis. Criamos um fantasma que assustava os funcionários nas escadarias sombrias do antigo Colégio; estabelecemos uma lei, em determinado dia da semana, em que todos da classe deveriam assistir às aulas sem sapatos (inclusive os professores! E alguns até “topavam!!!”); fazíamos casamentos imaginários na Capela do Colégio com música de órgão tocado por nós e com letra inventada... Tudo isso, claro, sem a permissão de ninguém. Aos poucos, essas informações foram chegando à direção da escola e houve um alerta, feito em forma de advertência, publicado no mural da escola, assinado pelo diretor. Mas nossa turma era descontraída e não fazíamos, na verdade, nada de mal, nem éramos mal intencionados. Nossa missão era rir e fazer os outros rirem. Os funcionários até nos protegiam, pois gostavam da nossa alegria. Havia um grupo principal, os protagonistas, sempre em ação, outros eram os coadjuvantes que ajudavam na preparação da idéia e o restante da classe era a platéia que aplaudia e incentivava. Um dia, chegamos a uma grande performance: conseguimos as becas de formatura da escola, vestimo-nos todos (protagonistas e coadjuvantes) e fizemos uma procissão em todos os corredores da faculdade, cantando uma música africana do Rei Nagô. Tínhamos na frente, um rei, vestido com a beca, uma coroa e um cetro na mão. As aulas foram interrompidas, incomodados os professores saiam às portas das salas e a confusão se fez. Então fomos chamados à Diretoria para falar com o Dr. Alfredo. Ficamos amedrontados, pois isso nunca havia ocorrido antes. Ele mandou que fôssemos imediatamente. E assim nos encaminhamos para a sala do diretor, todos vestidos com as becas e ainda fantasiados. Ao entrar, encontramos o Dr. Alfredo de pé, esperando por nós. Ele nos olhou. Estávamos todos com cara de medo e esperávamos uma grande bronca e, quem sabe, uma suspensão. Qual não foi nossa surpresa, quando ele, ao nos olhar mais detalhadamente, antes de dizer qualquer coisa, sorriu com aquele sorriso largo, bonito, desarmado, que incluía sorrir também com os olhos. Quando nos perguntou o que significava aquilo, já estávamos todos rindo, juntos e dividindo com ele a alegria que queríamos que se fizesse presente. Nada nos aconteceu, a não ser a certeza de que tínhamos a felicidade de ter um diretor que sabia sorrir.
Essa é a imagem que guardo do meu mestre. Além de ter sido um dos meus melhores professores, foi também um homem da gentileza, da elegância e da ternura. Mais tarde me tornei sua amiga mais próxima, pois juntos fundamos e participamos da Academia Francana de Letras e lhe sou grata por todas as vezes que ele me acolheu com aquele mesmo sorriso. Sempre que nos encontrávamos, na rua, ou nas reuniões da Academia ele, se estivesse sentado, levantava-se, abraçava-me e sorria. E, muitas vezes, elogiou meus textos, fato que sempre me deixou profundamente orgulhosa. Nunca ouvi o Dr. Alfredo dizer uma palavra desagradável a alguém. Nunca o ouvi reclamar. Suas palavras eram sempre de incentivo. Sua participação nas reuniões da Academia despertava reflexões e sua postura era, constantemente, muito elegante.
A foto que trouxe o Jornal Comércio da Franca, no dia de sua morte, revela esse Alfredo: um mestre que sabia muito mais do que todos nós, mas que nunca se vangloriava disto, um intelectual de renome que ultrapassou os limites geográficos de sua cidade, uma erudição que nossa geração não conseguirá mais atingir, mas, sobretudo, um mestre da gentileza, que sabia sorrir.
Obrigada, Dr. Alfredo, por nos ter dado muito mais do que aulas.