08 de julho de 2026

O intelectual


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Há cerca de trinta anos, fui entrevistar o Doutor Alfredo Palermo, a quem conhecia apenas de nome e de fotos no jornal.
A amiga Jane Mahalem comandava a edição de um caderno literário, pedira minha colaboração, e eu me comprometera a entrevistar o professor e advogado famoso. Se não me falha a memória, fui assessorado pelo escritor Roberto Zanin.

Nítida e permanentemente na memória, ficou a resposta a minha pergunta.

- O senhor se considera um intelectual?

O Doutor Alfredo Palermo sorriu e, com a calma que caracterizava a sua fala, evidenciou duas acepções da palavra intelectual. Informou-nos que, se estivéssemos considerando intelectual a pessoa capaz de dominar, ampla e profundamente, vários ramos do conhecimento, então ele não era, certamente, um intelectual. Por outro lado, se estivéssemos considerando intelectual aquele que desempenha suas funções, utilizando sobretudo as ferramentas do intelecto, então, sim, ele era um intelectual, enquadrava-se na definição, pois era, antes de mais nada, professor e advogado.

A partir daquele dia, passei a ver com outros olhos aquele homem a quem todos chamavam de mestre, mas que permanecia um tanto arredio, distante das atribuladas reuniões culturais de cujas organizações eu participava: Semana do Escritor Francano, Concurso de Poesia Falada, edição da Revista Veredas, Laboratório de Artes, palestras com literatos, lançamentos de livros.

Quando se fundou a Academia Francana de Letras, passei a conviver com o Doutor Alfredo Palermo e compreendi algo de seu temperamento. Senti que sua postura decorria mais da timidez e da humildade que de outra coisa.

Desde então, passei a enxergar o seu desejo de estimular a produção literária francana.

Testemunha isso o fato de incluir seu nome, já famoso, na Antologia dos Poetas Francanos, organizada por Dante Botilha Finatti, na década de 1960. Com seu nome e prestígio ajudou a conferir seriedade às antologias organizadas na cidade, nos últimos anos do século vinte e nos primeiros anos deste século.

Comentou, sempre de forma a ressaltar os aspectos mais positivos da obra, praticamente todos os livros de autores francanos publicados nas últimas décadas.

Abrilhantou, com simplicidade, reuniões da Academia, proferindo palestras sobre a obra de vários poetas.

Tudo isso me levou a admirar o Doutor Alfredo Palermo.

E hoje, tantos anos depois daquela entrevista, despeço-me do homem, sabendo que a pergunta foi feita por alguém imaturo e ignorante da História da cidade.

Ele foi intelectual em todas as acepções do vocábulo.