Ele chegou, líquido e doce, sem barulhos e sem preparativos, assim como se faz o “pelo sinal”. Estavam bem juntinhos o pai, o filho e a mãe. O espírito santo pairava em todos, vestidos de branco, e o som que vinha ao longe era azul-infinito, cheirando a peixe, e invisível na noite alta.
A lua redonda se apresentou em véus brancos, espiritada. Ela espiava curiosa o silêncio branco do trio, suspenso, embaixo dela.
O dia era diferente de outros já perdidos em horizontes azuis cheirando inocências, onde poucos rezavam por ele na areia, e barquinhos saíam para saudá-lo em alto mar, sob proteção de Iemanjá, alegrias simples que sumiram nas noites de antanho.
Os três entrelaçados quando ele chegou, em roda apertada, círculo a marcar todas as ausências daquele “então”, abafando ruídos alienígenas. Sem bebidas, sem sustos no momento anunciado. Houve, sim, sussurros pacificadores, sorrisos de olhos, e beijos, muitos beijos.
Caminharam os três seus solitários caminhos. A alma, afinal, sempre segue quase todo o sempre sozinha, e só ela sabe das pausas que marcam os encontros íntimos dela com outras almas. A alma tem lá suas calendas.
Depois comeram modestamente, beberam em pequenos goles e riram porque tudo parecia exatamente igual a ontem e seria igual ao amanhã. Comeram um banquete inventado, o frango, o arroz-com-lentilhas e a salada de batata com o bacalhau espiritual. Beberam cerveja e vinho.
Depois se despediram ternamente, uma foi dormir, outro foi assistir a um filme e o mais novo se conectou aos outros jovens de todo o mundo.
Sonharam mais e melhor depois que ele chegou - este que não tinha outro jeito de não chegar - e ele se foi depois, também, atrás da lua, e amanheceu forte com o sol, e ficou aqui, e ali, em todos os lugares, com cada um e uma, mais lentamente, trazendo pesadelos para uns e doces sonhos para outros.
A vida continua igual e eternamente diferente depois desta passagem dele. Agora é a vida que faz um “pelo sinal”.
Quem lê o que aqui se escreve, hoje, lê igual e diferente. Ele vai ficar no lugar que - a ele - cada um reservou. Se de esperança esperançoso ficará. Se de sufoco sufocado ficará. Se de dor dolorido ficará.
No lugar da esperança ele pode se revelar de modo mais imprevisto. Tudo pode acontecer a quem estiver atento ao “pelo sinal” da vida que ritma em cada um e em todos. Quando ele chega é que a gente percebe que ele não está, nunca esteve no calendário, nem gregoriano, juliano ou babilônico.
É a alma que traz a marca da sua chegada e da sua partida, da sua passagem. E o torna novo ou velho, bom ou mau, feliz ou sinistro, ainda recém-nascido.