Fim de ano. As pessoas se acotovelavam no centro da cidade numa desordenada e febril correria. A chuva fina intermitente insistia. O vento virava as sombrinhas diante da indignação das pessoas.
Andava apressada, o banco não tardaria a fechar, temia perder o compromisso.
O inédito da cena chamou-me a atenção: em pé, em cima da concha acústica, punho cerrado como a segurar um imaginário microfone, um homem cantava versos de Gonzaguinha “Viver e não tenha vergonha de ser feliz, cantar e cantar....”.
Alguns paravam e olhavam espantados, outros riam. “Deve ser malucão” dizia outro.
Quem seria aquele homem? O que leva uma pessoa a se expor de tal forma? Quais as dores que levava na alma? Teria família, e se tivesse, ela se envergonharia dele? Que segredos carregava? Como conseguira se desligar completamente do contexto não se importando em ser ridículo?
Essas e outras conjecturas foram aflorando e confesso senti um pouco de inveja daquela figura singular, quixotesca desafiando a indiferença e a frieza da cidade grande. Sem clichês, ou tradicionais mensagens natalinas, aquele desconhecido emocionou-me, tornei-me mais receptiva, absorvi um pouco daquela alegria extravagante, sorri, depois, sem mais me conter, ri, gargalhei... O espírito natalino me pegou naquele momento.
Entrei no banco ainda assim. O funcionário sisudo balbuciou algo imcompreensível. Não me contive: – Antes de qualquer coisa, boa tarde!